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Precisamos de mais mulheres nas ciências

Escolas da LBV incentivam meninas e jovens a atuar na área de pesquisa, que não conta nem com 30% da participação feminina no mundo

Vivian R. Ferreira
Alunas do Conjunto Educacional Boa Vontade, em São Paulo/SP, no Laboratório de Química da escola.

Apesar dos grandes avanços no caminho da igualdade de gênero, em pleno século 21 as mulheres ainda estão sub-representadas nas áreas da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática, campo conhecido pela sigla em inglês STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics). Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), elas são menos de 30% dos pesquisadores em todo o mundo (veja outros números referentes ao tema no infográfico na p. 38).

Também de acordo com essa agência da ONU, a presença feminina pode ser determinante para o planeta superar alguns dos maiores desafios da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável, que inclui, entre outros tópicos, a melhoria do sistema de saúde e o combate à mudança climática.  “A diversidade na pesquisa expande o grupo de pesquisadores talentosos, trazendo nova perspectiva, talento e criatividade”, informa o estudo.

Muitos estabelecimentos de ensino, antenados com a necessidade de atender a essas demandas presentes e futuras, preparam pessoas para serem profissionais que satisfaçam tais exigências. As escolas de Educação Básica da Legião da Boa Vontade (LBV), por exemplo, buscam despertar nas crianças e nos jovens vindos de famílias em situação de vulnerabilidade social o interesse e o gosto pelas diferentes esferas do saber humano, incluindo as ciências.

Vivian R. Ferreira

No Conjunto Educacional Boa Vontade, em São Paulo/SP, a reportagem desta revista conheceu uma das iniciativas relacionadas ao uso do STEM no ensino. Estas objetivam engajar alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e das três séries do Ensino Médio em olimpíadas acadêmicas. E isso está dando certo, pois a escola tem conseguido empolgar um grupo significativo de estudantes, alcançando a paridade de gênero no número de participantes.

Os educadores ressaltam que o envolvimento necessário para vencer os desafios que esse tipo de competição oferece dá maior dinâmica ao estudo, além de deixar os educandos mais aptos a enfrentar as exigências dos exames vestibulares do Ensino Superior e, até mesmo, a ingressar na carreira profissional.

A força do exemplo

Vivian R. Ferreira

Vitória dos Santos, de 14 anos, aluna do Instituto de Educação José de Paiva Netto, em São Paulo/SP.

Como o potencial das meninas e jovens para as ciências muitas vezes é inexplorado, a LBV empenha-se em aproximar delas o acesso a essas oportunidades, sem restrições e de maneira empática. Vitória dos Santos, de 14 anos, aluna do 9º ano do Ensino Fundamental, é um dos exemplos. Participante da segunda fase da Olimpíada Brasileira de Raciocínio Lógico e Matemática (OBRL) e da Olimpíada Brasileira de Química Júnior (OBQJr), ela não esconde o entusiasmo que sentiu durante a preparação para as provas. “O jeito de os professores ensinarem é muito bom, um jeito interativo. Quando você entende algo, fica com vontade de ir adiante, de aprender mais; vê que Química e Matemática não são um ‘bicho de sete cabeças’, como muitos dizem”, destacou.

Para a estudante, uma das aulas marcou especialmente, pois nesse dia conheceu um pouco sobre a história de vida da cientista polonesa de naturalização francesa Marie Sklodowska Curie (1867-1934). “Ela foi a primeira mulher a receber [o Prêmio] Nobel e a única a ganhar o prêmio em Física [1903] e Química [1911]. Fiquei maravilhada. Eu falei: ‘Nossa, que lindo!’”

A jovem declarou que obteve grande apoio e incentivo dos educadores e dos colegas para participar das olimpíadas. “Eu senti que estava fazendo algo importante, de bom para a sociedade.” Ela completou: “Quando você está fazendo algo dominado pelos homens, não está lutando só por você; está lutando por sua filha, pela sua mãe e por todas as mulheres. Influencia outras pessoas a querer ser melhores”.

Vitória, que sonha em seguir carreira na área de exatas, recordou a felicidade da família com seu bom desempenho nas competições. “Os meus pais vieram do interior e não tiveram muito acesso à educação. Eles viram em mim algo que não puderam ser.”

Vivian R. Ferreira

PROFESSORES DEDICADOS — Na foto, a oficina de redação destinada aos discentes que participariam da edição 2018 do Enem, ministrada pelo professor de Português Samuel Rodrigues Silva. Ele, a exemplo de outros educadores do estabelecimento de ensino, se empenha para transmitir as melhores dicas aos alunos. Por isso, faz todos os anos o exame. De acordo com Samuel, essa é uma das maneiras mais eficientes que encontrou para “estar inteiramente atualizado com as mudanças [do Enem] e de ter a percepção de todas as dificuldades que os jovens têm de enfrentar nos dois dias [de realização das provas], desde o horário de chegada [ao local delas] ao tempo [disponibilizado para que eles as executem]”.

Estratégias para fomentar o gosto pelas Ciências

Vivian R. Ferreira

Juliano Bento, professor de Matemática e de Física no Ensino Médio do Conjunto Educacional Boa Vontade.

Juliano Bento, professor de Matemática e de Física no Ensino Médio do Conjunto Educacional Boa Vontade, constatou, com alegria, que, “na escola da LBV, a proporção é cada vez maior de garotas tomando a frente nessas disciplinas [de STEM]”. Para ele, isso é resultado de várias ações inseridas nos processos de socialização e de aprendizagem graças à Pedagogia do Afeto (destinada a crianças de até 10 anos) e à Pedagogia do Cidadão Ecumênico (aplicada a pessoas a partir dos 11 anos).

Ambas as pedagogias compõem uma vanguardeira linha educacional, criada pelo educador Paiva Netto, que objetiva proporcionar uma educação integral e permeada pelo ensino de valores espirituais, éticos e ecumê­nicos. Desse modo, há espaço para inovações nas estratégias de ensino. “Por exemplo, eu observo que as meninas conseguem a retenção de conteúdos muito mais ao observar certos fenômenos e fazer links com matérias passadas. Nós, aqui, reforçamos essa habilidade de observar todo o aspecto geral nessas disciplinas”, salientou Juliano.

Outro ponto forte dessa linha de ensino, aplicada nas unidades de atendimento da LBV, é o fato de interligar as áreas da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática em utilizações práticas. “Recentemente, nós levamos tablets para os alunos em uma oficina, em que eles tinham que tirar fotos de perspectivas, [para ter] a ideia de grande, pequeno, alto e baixo. Como a captura da lente da câmera não dá toda a profundidade necessária que os nossos olhos conseguem captar, você tem essa ilusão de ótica ao pegar perspectivas diferentes de prédios altos, pessoas pequenas. Isso desconstrói certos conceitos que eles construíram, e esse é um trabalho importante, porque pior do que não saber um conceito em determinado momento é sabê-lo de forma equivocada. A gente vê que essa mobilização, esse despertar da curiosidade, é fundamental para conquistar a atenção do aluno”, enfatizou Bento.

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Influência positiva

Vivian R. Ferreira

Juliana Bosso, professora de Química no Conjunto Educacional Boa Vontade.

As olimpíadas abrem espaço também para que os estudantes interajam mais com os docentes das áreas de STEM. Juliana Bosso, professora de Química no Conjunto Educacional Boa Vontade, disse que o fato de haver várias educadoras na área serve de inspiração. “A gente vê que as meninas querem o seu lugar nas engenharias, nas ciências exatas de maneira geral. Então, há um incentivo ainda maior. Nós falamos: ‘Vocês têm em nós esse porto seguro. Vocês podem sempre pedir auxílio, conversar’. Sempre reforçamos isso para elas.”

Além de contribuir para a melhora da autoestima dos educandos, pelo fato de sentirem que são capazes de galgar novos degraus acadêmicos, a ação provoca nesses jovens um olhar mais amadurecido. “Eles já chegam mais interessados [na classe]. ‘Nossa, eu vi isso na prova. Se tivesse prestado maior atenção nessa aula, teria acertado aquela questão.’ Então, fazer simulados em sala de aula e avaliações externas desperta neles a importância de estar presentes, não só [com] o corpo, mas presentes mesmo, porque sabem que aquilo pode cair no vestibular, no Enem. Eles vêm mais aguçados para adquirir conhecimento”, concluiu Juliana.