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Pandemia e hábitos saudáveis

Especialistas ensinam como manter idosos protegidos, mais ativos e felizes para enfrentar o distanciamento social.

A LBV está trabalhando, desde o início da pandemia, para amenizar os prejuízos gerados pelo novo coronavírus. Esta atuação beneficia crianças, adolescentes e adultos em situação de risco social, com atenção também aos idosos, um dos grupos de risco da doença.

Confira nossa atuação em favor deste público.

Trazemos uma interessante reportagem da revista BOA VONTADE, constante na edição nº 258, mostrando como podemos manter os idosos protegidos, mais ativos e felizes para enfrentar o distanciamento social.


A pandemia do novo coronavírus tem afetado a vida, em maior ou menor grau, de todos os cidadãos. As pessoas com mais de 60 anos sofrem o impacto da atual crise sanitária de maneira ainda mais intensa, por fazerem parte do grupo de risco.

Por conta própria ou por incentivo de familiares, elas têm se preocupado em assegurar o necessário distanciamento social, principalmente agora, com cepas mais agressivas do Sars-Cov-2 espalhando-se. No entanto, médicos apontam que boa parte de seus pacientes nessa faixa etária vem apresentando declínio funcional — o que gera brecha para a incidência de outras doenças.

Para falar como é possível mantê-los mais ativos mesmo tomando todos os cuidados para a prevenção da Covid-19, a revista BOA VONTADE reproduz a seguir a entrevista com a geriatra Adriana Irikawa e a fisioterapeuta Carla Gustchov, esta com especialização também em gerontologia.

No bate-papo, concedido ao programa Viver é Melhor!, da Boa Vontade TV, as especialistas ressaltam a importância de os familiares apoiarem o idoso a manter uma rotina de hábitos saudáveis.

Adriana Irikawa, geriatra, especialista em acupuntura.

BOA VONTADE — Alguns pacientes que tiveram a Covid-19 ficaram com sequelas. Quais são os sintomas mais comuns?

Adriana Irikawa — A síndrome pós-Covid é inflamatória e multissistêmica, que acaba se manifestando de três a cinco semanas após o evento. Qual o sintoma principal? A fadiga, o cansaço. Como segundo sintoma, temos as dores osteomusculares. Os pacientes queixam-se muito que estão com dores pelo corpo. (...) O terceiro é a falta de ar. Há pessoas que precisaram usar oxigênio em casa. Muitas vezes, isso vai reduzindo com a fisioterapia respiratória, que auxilia a caixa torácica e melhora o quadro. É importante que os pacientes deem seguimento ao tratamento mesmo estando em suas residências. O quarto sintoma que ocorre bastante é o distúrbio do humor, [envolvendo] depressão, ansiedade e estresse.

BV — Em geral, como a pandemia tem afetado a saúde dos idosos?

Adriana Irikawa — O que temos visto nos consultórios é que eles têm retornado com os exames bastante alterados. Colesterol ruim, triglicérides, glicemia e hipertensão muito altos. Há uma descompensação metabólica, porque tiveram um estresse maior. O idoso acaba ficando mais estressado também por conta de todo o processo de distanciamento social. (...) [Antes da pandemia,] vários faziam aula de dança, por exemplo. Então, ao dançarem com os seus parceiros, tinham atividade social, encontravam-se e praticavam exercícios físicos de maneira bastante adequada. Agora isso não ocorre. Lembrando que a atividade física melhora não só o nosso corpo, mas também a nossa saúde mental.

“Os idosos precisam de nós, jovens, porque representamos [o movimento da] vida, o sonho, a perda do emprego, a vitória em relação à dificuldade financeira... Quando colocamos os idosos como centro do mundo, eles sempre terão o que ensinar. (...) O idoso fará parte da vida do outro quando a gente permitir.”
Carla Gustchov

Carla Gustchov, fisioterapeuta, especialista em cuidados na terceira idade.

BV — As novas variantes do coronavírus têm levado cada vez mais jovens para os hospitais. Isso aumenta a preocupação em relação aos idosos, que sempre foram considerados do grupo de risco por causa da fragilidade da saúde. Como mantê-los seguros?

Carla Gustchov — Se o indivíduo já teve a Covid-19 e a doença trouxe sequelas, precisará de um processo de reabilitação (...) [e, para isso, deverá] procurar um profissional que conseguirá direcioná-lo. (...) Dói, por exemplo, quando um paciente de 94 anos entra no hospital andando [para tratar a Covid-19] e, após a recupe­ração, não consegue mais ficar em pé. Dói, porque o idoso nonagenário quando é ativo tem isso como um troféu. Ele está acostumado a ver as pessoas o elogiando ao ir à feira ou à padaria. Certo paciente me falou: “Carla, eu preciso ficar na rua. Não posso ficar em casa. Se eu ficar em casa, vou ficar caduco. O que me faz ter independência e autonomia é a rua. Tenho que olhar o farol, conversar com as pessoas, saber o que está acontecendo. E você quer que eu fique em casa?” Respondi: não quero que o senhor fique em casa [inativo], não quero que fique caduco, mas desejo que tenha responsabilidade. Não precisa se sentar no banco do ônibus, como faz há anos. Agora, o senhor pode aprender a usar o celular. E vários pacientes começaram a ter consultas por teleatendimento!

BV — Então, precisamos não só ajudar os idosos a respeitar o distanciamento social, mas incentivá-los a fazer isso de forma ativa.

Adriana Irikawa — Tive um paciente com suspeita de ter contraído a Covid-19. E o receio dele não era de morrer, era o isolamento. Ele tinha medo de ficar sozinho. E, muitas vezes, o idoso já tem certo distanciamento social, pois há pessoas que já faleceram na família dele. (...) É importante lembrar: quando falamos em distanciamento social, não significa confinamento, não é para o idoso ficar sozinho, totalmente isolado e confinado dentro do próprio ambiente. Temos casos de indivíduos que dizem não colocar o pé na rua há um ano. Será que isso é saudável? Até que ponto isso irá protegê-lo? Será que [essa inatividade] não o levará a [ter] outras doenças? É importante ter equilíbrio. (...) “Quando posso visitar o meu pai? Será que vou levar alguma doença para ele?”, alguém pode perguntar. É essencial que tenhamos os cuidados [sanitários]. O uso de máscara é um dos itens mais relevantes para prevenir a doença. Se eu a utilizo e o meu pai também, se ficamos a um metro e meio de distância e usamos álcool em gel 70% para limpar as mãos, nós estamos protegidos. Precisamos manter a assistência aos idosos, o contato com eles, porque temos visto que acabam ficando com quadro muito grande de ansiedade, de estresse, de depressão [quando enfrentam a pandemia sozinhos]. Que possamos compreender e lidar melhor com a doença! Não precisamos ter medo, mas fazer tudo aquilo que necessitamos para prevenir a transmissão. Se conseguirmos fazer isso, preservaremos a saúde e a qualidade de vida dos idosos ao mesmo tempo que os protegeremos.

“Quando falamos em distanciamento social, não significa confinamento, não é para o idoso ficar sozinho, totalmente isolado e confinado dentro do próprio ambiente. Temos casos de indivíduos que dizem não colocar o pé na rua há um ano. Será que isso é saudável? Até que ponto isso irá protegê-lo? Será que [essa inatividade] não o levará a [ter] outras doenças? É importante ter equilíbrio.”
Adriana Irikawa 

BV — Que outras dicas podemos colocar em prática?

Carla Gustchov — Para muitos idosos, é uma afronta estar bem enquanto crianças e jovens estão morrendo. Tenho uma paciente que perdeu dois netos e um filho. Como vou falar que ela deve caminhar no quintal e se exercitar sendo que o neto dela era atleta? Porém, posso mostrar a ela que é possível fazer um painel de fotos em casa. Se colocarmos todas as imagens em cima da mesa, vamos trabalhar equilíbrio, mobilidade, propósito, e ela vai, sim, se cuidar e lembrar dessas pessoas que a amavam muito e que continuarão presentes com ela [nas memórias e no coração].  (...) Porque não podemos mais enviar cartas... [Se o idoso tem familiaridade com as tecnologias atuais] e temos um celular para fazer chamada de vídeo, é usá-lo. O idoso, quando recebe uma ligação, faz uma atividade de vida instrumental. E aí ele vai, sim, ativar o corpo: se estava deitado, vai ficar um pouco mais sentado; se estava sentado, poderá conversar em pé. (...) Devemos estimular o paciente a sentar e a levantar da cadeira, a pegar algo, a apertar uma almofada entre os joelhos, mas, principalmente, pedir a ele que se movimente. (...) Está tudo bem se não posso andar na rua, mas posso dar duas voltas na sala de casa. Amanhã, posso marcar o tempo em que estou dando essas voltas e gerar o desafio que dou conta para minha vida. (...) É preciso que a atividade faça algum sentido para ele. É o que faz a gente ter a nossa rotina, a qual o idoso também necessita.

BV — Adriana, qual mensagem podemos deixar ao público da terceira idade?

Adriana Irikawa — O importante, em relação a tudo isso, é que a gente possa fazer, da melhor maneira possível, com todos os nossos recursos internos e externos, a prevenção e a promoção da saúde. Se temos uma dieta balanceada, se praticamos atividade física, se temos a condição mental adequada, isso melhora até a nossa imunidade. É fundamental que, no nosso dia a dia, pratiquemos aquilo que nos faz bem, pois assim fortalecemos o nosso sistema imunológico e cardiovas­cular e, desse modo, temos melhor qualidade de vida para enfrentar a pandemia. [O fim dessa crise sanitária] vai demorar a chegar, temos muitos desafios pela frente. (...) Tenham cuidado, é claro, mas sejam felizes. Vamos curtir e aproveitar o dia de hoje mantendo nossa saúde física e mental adequada.

* Com colaboração de Camila Barbieri.