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Os superpoderes do esporte

Programa da LBV promove inclusão, desperta potencialidades e revela novos talentos.

Leilla Tonin

Quem nunca se empolgou com cenas de um filme em que o super-herói realiza coisas extraordinárias, luta contra o mal e, no final, vence a batalha? Na vida real, não temos essa força extra-humana, no entanto, muitos educadores espalhados pelo mundo afora conservam dentro de si poderes especiais nascidos no Amor Fraterno que nutrem pelo próximo, por meio dos quais operam verdadeiros milagres na vida de seus alunos.

Exemplos disso ocorrem todos os dias nas escolas e nos Centros Comunitários de Assistência Social da Legião da Boa Vontade da Argentina, da Bolívia, do Brasil, dos Estados Unidos, do Paraguai, de Portugal e do Uruguai, que recebem milhares de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Nesse embate do Bem contra todos os tipos de mazelas, as estratégias utilizadas pela LBV em suas unidades de atendimento são a Educação de qualidade, sempre firmada nos valores da Espiritualidade Ecumênica, a dedicação dos educadores e um grande aliado: o Esporte.

Ações com esse perfil são realizadas no entorno de uma das comunidades mais pobres e que registra os maiores índices de violência do Rio de Janeiro/RJ, no Centro Educacional da LBV, no bairro Del Castilho. Lá, há alguns anos, os atendidos encontraram na atividade esportiva um meio para criar laços e fortalecer o relacionamento com os demais estudantes, os profissionais e a família. A meta da Instituição é formar cidadãos globais, pessoas preocupadas com a sociedade e que sejam capazes de lutar por seus objetivos, respeitando e ajudando o próximo.

O coordenador de esporte do Centro Educacional da LBV na capital fluminense, Sergio Euzébio, afirma que, com a prática desportiva, “o aluno aprende a lidar com os próprios limites e a buscar sempre a superação. Em estudantes com algum tipo de transtorno ou deficiência, a superação é mais evidenciada, tanto a física como a emocional, fortalecendo, assim, a autoestima [deles]”.

Para Sergio e a equipe, a atividade física é uma das melhores ferramentas para se trabalhar valores emocionais e sociais, pois, com ela, se aprende brincando. Oferecer essa oportunidade, que deveria ser um direito de todos, é um dos benefícios que a Entidade tem conseguido disponibilizar às meninas e aos meninos amparados por ela, os quais dificilmente teriam a mesma chance em outro lugar da comunidade em que residem, tanto pela falta de espaços públicos adequados quanto pela escassez de verba, porque algumas das modalidades ofertadas na LBV são de alto custo.

Diego Ciusz

INCENTIVO QUE SE TRANSFORMA EM BOAS NOTAS
Essas vivências, além de manter a garotada saudável, afastando-a do sedentarismo e, portanto, de possíveis doenças na fase adulta (como o diabetes, a pressão alta etc.), são responsáveis pela melhora do rendimento dos estudantes em sala de aula. De acordo com a estimativa dos professores da LBV, 80% dos educandos que frequentam alguma atividade esportiva no colégio apresentam progresso nas notas das disciplinas escolares. Isso se dá por inúmeros fatores, entre os quais o aumento da concentração (foco), da disposição e da qualidade do sono, além da diminuição dos níveis de ansiedade.

O professor de Matemática Bruno Alves, responsável pela Oficina de Xadrez na referida unidade de ensino, ressalta que o jogo de tabuleiro “trabalha o raciocínio lógico, a concentração e a potenciação de resolver o problema, fazendo com que a pessoa passe a raciocinar mais rápido e a ter mais facilidade para superar dificuldades”.

Vitor Hugo de Souza Christo, de 13 anos de idade, aluno do 8º ano do Ensino Fundamental, diagnosticado com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), comprovou a importância do esporte e tornou-se fã da modalidade que pratica. “Eu adoro jogar xadrez, ele me ajuda na concentração. Se eu não estivesse aqui nessa escola, hoje eu não seria nada. Estou aprendendo várias coisas. A escola é perfeita, muito boa”.

Alexandre Christo, pai do adolescente, confirma as mudanças positivas: “Ele ficou menos ansioso, o xadrez tem ajudado muito. Em casa, também está mais comportado”.

Andressa Ferreira

O professor de Educação Física Vinícius Azevedo lembra que o esporte possui aspectos variados. Além de ajudar no desenvolvimento da consciência corporal, da lateralidade e da parte motora e na melhora do comportamento dos educandos em sala de aula, a atividade física busca despertar neles algo mais. “Queremos formar cidadãos de bem e desejamos que o que é ensinado aqui, com o nosso ecumenismo, com a nossa emoção, possa ser espalhado por eles fora da LBV”, comenta o profissional.

Como encontram no dia a dia situações desafiadoras, que envolvem o emocional dessas crianças e desses adolescentes, os quais, muitas vezes, vivenciam situações de grande vulnerabilidade em seus lares, o papel dos educadores da Instituição é ampliado: “A gente não é só professor, preparador técnico, é uma pessoa que acompanha [, na medida do possível, os desafios enfrentados por eles]. Às vezes, a gente precisa também ser pai, psicólogo, ter várias funções dentro de uma coisa só”, afirma.

Todo o empenho dos docentes e dos funcionários do Centro Educacional da Instituição no Rio de Janeiro é compensado com as demonstrações de carinho da garotada e os bons resultados obtidos na escola. “Quando eles vão bem nas provas, falam conosco e dizem: ‘Tio, tirei nota boa em Matemática, em Geografia...’ Eles querem mostrar que estão melhorando cada vez mais”, ressalta Vinícius.

Diego Ciusz

Quem igualmente afirma que essa abordagem tem sido bem-sucedida é Suzana Tito Monteiro, mãe de Vitor Hugo Monteiro, de 14 anos, do 7º ano do Ensino Fundamental, que frequenta a escola da LBV desde 1 ano e meio de idade. De acordo com ela, a prática do judô reduziu a agitação do jovem e despertou nele bons sentimentos: “O Vitor passou a se concentrar mais, a ser mais disciplinado e a se importar com o próximo. Mudou bastante a vida dele”.

ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO
Curiosamente, o judô, que foi um dos esportes que mais conquistaram medalhas* para o Brasil nas Olimpíadas (22, sendo quatro de ouro, três de prata e 15 de bronze), é também a modalidade esportiva de alto rendimento do Centro Educacional da LBV (veja quadro) que mais revelou talentos. Em 2018, os judocas da Legião da Boa Vontade alcançaram resultados expressivos, como a conquista de sete troféus e de mais de 100 medalhas no individual (na Liga Confederada de Judô), além de ter mais de 80 participações em campeonatos da Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro (FJERJ), da Liga Confederada de Judô (LCJ) e do Intercolegial Sesc O Globo.

Aluno da LBV fatura ouro em Campeonato Brasileiro de Judô

O bom desempenho dos atendidos pela Legião da Boa Vontade em outras competições tem se repetido em 2019. No mês de abril, o atleta João Pacheco, de 12 anos, que está no 7º ano do Ensino Fundamental, conquistou a medalha de ouro na categoria +60kg, durante o Campeonato Brasileiro Regional III, organizado pela Confederação Brasileira de Judô, na cidade de Lauro de Freitas/BA. A competição é referência para o esporte, pois reúne os principais atletas do país. Pacheco acumulou três vitórias por ippon, que é quando o adversário cai de costas ou é imobilizado por 20 segundos no chão.

Para o coordenador de esportes da LBV no Rio de Janeiro, a vitória de João já havia sido conquistada desde o início do ano. “Essa medalha de ouro ele conseguiu desde janeiro, quando voltou a treinar. Ele passou quase oito meses afastado por causa de uma contusão no joelho. Achamos que não ia retornar aos treinos, que ficaria com medo de se machucar novamente, mas ele é guerreiro e voltou. Então, cada treino que concluía era uma medalha de ouro para ele”, disse Sergio.

Vinícius Azevedo

João Pacheco ladeado por seus professores Sergio Euzébio (E) e Vinícius Azevedo. No destaque, João posa para foto no pódio e, orgulhoso, exibe sua medalha de ouro.

O adolescente credita o seu sucesso à qualidade do atendimento da Entidade: “A LBV fez muitas coisas por mim, é a minha segunda casa! É onde eu aprendo, faço judô, muay thai, diversos esportes. Se não fosse a Legião da Boa Vontade, eu não estaria onde estou hoje”.

A avó materna, Célia Luiza Pacheco Guilherme, que cria o menino com grandes dificuldades, não cabe em si de orgulho: “Ele é a minha alegria, um pedaço de mim. O João foi um exemplo de superação quando fraturou a tíbia. Ele se recuperou da lesão, logo começou a treinar e, na primeira competição após o acidente, ganhou um ouro”. Apesar dos desafios que enfrenta, inclusive sérios problemas de saúde, dona Célia não se deixa abater diante das lutas que enfrenta e fala com carinho do auxílio que sempre recebeu da Entidade: “Na LBV, há uma atenção especial. Ele e os outros coleguinhas têm esse apoio na alimentação, no estudo, no esporte... Em tudo. Sou muito feliz e grata à Instituição”.

Ao encerrar a reportagem no Centro Educacional da Instituição na capital fluminense e refletir sobre as histórias de vida e as transformações operadas naquele local, tem-se a certeza de que o esporte realmente tem superpoderes porque ele enriquece a existência de quem se aproxima dele. Graças ao diferencial da LBV, que educa com Espiritualidade Ecumênica, daquele lugar sairão muitos campeões e também bons médicos, artistas, engenheiros, professores e tantos outros profissionais que esses meninos e meninas quiserem ser.

Diego Ciusz

(Colaborou: Danielly Arruda)