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O desafio de ser mulher, negra e pobre

Relatos de quem encontrou na LBV o apoio para reescrever a própria história e transformar as próximas gerações

 
 
Vivian R. Ferreira
Maria Solange da Graça, 65 anos.
 

Uma das grandes qualidades do trabalho da Legião da Boa Vontade é ser, acima de tudo, acolhedor, cuidando das carências do corpo e da Alma de seus atendidos. Por essa característica marcante e por estar presente onde as pessoas mais precisam, amparando-as em situações de vulnerabilidade social, a LBV protege e empodera muitas mulheres negras.

No Brasil, onde a escravização de africanos e de seus descendentes ao longo de quase quatro séculos deixou um saldo bastante negativo, a problemática socioeducacional ocorre, em grande parte, de maneira transversal à desigualdade de gênero e racial. Não são poucas, portanto, as que chegam à Instituição relatando que sofrem as mais diversas formas de violência, precisando dessa rede de apoio para darem a volta por cima. 

As histórias dessas lutadoras mostram a importância de políticas públicas voltadas para o tema, bem como a ação de organizações da sociedade civil empenhadas em promover a mudança dessa realidade, ajudando a construir, pela Educação e pelo respeito ao ser humano, horizontes promissores não só para as próprias mulheres, mas também para seus familiares.

Jornada de lutas e de vitórias

Em São Paulo/SP, a reportagem da revista BOA VONTADE encontrou Maria Solange da Graça, 65 anos, cuja jornada de lutas iniciou há mais de 50 anos em sua terra natal, Itajaí/SC, onde, para garantir a sobrevivência da mãe e de dois irmãos mais jovens, muitas vezes teve de bater à porta de vizinhos para pedir alimentos e dinheiro. Na época, ainda adolescente, inconformada com a situação, resolveu mudar-se para a capital bandeirante para morar com uma tia, a fim de trabalhar e ajudar a família.

Na metrópole paulistana, não faltaram desafios. Um dos mais difíceis foi a perda precoce da mãe, aos 41 anos, vítima de um acidente de carro, o que fez Maria Solange acelerar o casamento para trazer ao seu lar os irmãos, assumindo a tutela deles. Contudo, aquilo que parecia uma solução se transformou em drama: “Foi muito sofrimento, muita decepção. O meu ex-marido era filho de italiano, e eu, negra. Depois que  nos casamos, ele passou a me humilhar, deixava todos os dias cartas, como se fossem um quadro, em que escrevia coisas que a gente via em para-choques de caminhões: ‘negro não ri, relincha’; ‘pé de negro parece um pilão’; ‘herói o branco que mata um negro em cada esquina’. (...) Ele me arrastava dentro de casa como se eu fosse um saco de batata, não podia sentar, não podia deitar”.

Arquivo BV

Família LBV

Após conseguir sair dessa relação abusiva, Maria Solange encontrou um novo companheiro, com o qual se casou e ficou grávida de sua primeira filha, Letycia Elizabeth. Ao mesmo tempo que o fato trazia grande alegria, era também motivo de preocupação: o que ela faria se não encontrasse um lugar para deixar o bebê enquanto estava no emprego? Vale dizer que, apesar de ser um direito previsto na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), o Brasil apresenta um déficit histórico de vagas em creches da rede pública. Em 30 de junho de 2019, o portal de dados da Secretaria Municipal de Educação da capital paulista revelou que 34.317 crianças estavam na fila de espera por vagas em uma creche da prefeitura. Agora, imagine na década de 1980, quando as mobilizações reivindicando os direitos das mães trabalhadoras davam ainda os primeiros passos.

Maria Solange, que residia próximo à Av. Rudge, no 630, no Bom Retiro — local em que estava sendo construída a Supercreche Jesus —, acalentava em seu coração um desejo especial. “Eu passava todo dia por ali, admirava a beleza do lugar, as árvores, era como se fosse uma coisa do céu, e dizia: se Deus quiser, a minha filha um dia vai estudar aqui”. Pouco depois de dar à luz, a unidade foi inaugurada, em 25 de janeiro de 1986, e o que tanto desejara se realizou: “Quando ganhei minha menina, escrevi uma carta [para a escola], e faltando três dias para eu voltar a trabalhar, a chamaram. Ela estava com três meses”, conta a mãe, que, ainda hoje, se emociona com o acontecimento.

Mal sabia Maria Solange que aqueles eram os primeiros passos para a grande transformação que iria acontecer pouco a pouco na vida dela. Nos anos seguintes, a LBV ampliou a unidade de ensino anexando novos prédios, elevando-a à categoria de Conjunto Educacional Boa Vontade, no qual são atendidos, atualmente, cerca de 1.500 alunos, do berçário ao Ensino Médio, além da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Eu não tinha com quem contar, a quem pedir uma bala, e a Legião da Boa Vontade foi a minha família, deu lugar para a Letycia e o Hernany, meu filho mais novo, ficarem em segurança, servindo comida; até uma meia que eles precisavam a Instituição oferecia. Recebiam educação de qualidade, com acompanhamento dos educadores... Eu podia trabalhar sossegada, porque sabia que eles estavam em um lugar seguro, que não passariam fome, coisa que eu e meus irmãos passamos quando éramos crianças, por mais que eu lutasse”, recorda.

Arquivo BV

Maria Solange é categórica ao afirmar: “O meu grande diferencial foi a LBV”. Para ela, a Instituição, além da Educação de qualidade que oferece, destaca-se porque possibilita que a família participe do ensino de forma ativa. “Na escola, há um cuidado com a educação, com cada procedimento, para que [haja] continuidade do estudo. Há um elo entre os pais e a LBV. Eu, por exemplo, participei de todas as reuniões. Em todos os eventos, sempre fui muito presente. Se eu não estava, era o meu marido que ia.”

Segundo ela, os filhos receberam muito “amor, [demonstrações de] amizade, respeito e humanidade”, que são, ao lado de outros bons valores, promovidos pela linha educacional da Legião da Boa Vontade, criada pelo educador Paiva Netto, composta pela Pedagogia do Afeto e pela Pedagogia do Cidadão Ecumênico, as quais atendem de maneira específica às diferentes realidades das faixas etárias.

O resultado não poderia ser outro: além de uma carreira profissional bem-sucedida, a Instituição inspirou neles aquilo de que a sociedade tanto precisa nos dias atuais. “Eles são pessoas humanas, empáticas, que pensam no semelhante. A minha sensação é só de agradecimento. Sou eternamente grata à LBV pelo que eu e os meus filhos hoje somos”, ressalta Maria Solange.

Primeira da família a completar o Ensino Superior

À medida que os filhos iam ultrapassando as etapas da trajetória escolar, a mãe, graças à Entidade, também dava seus passos e começou a se dedicar à própria formação, como um meio de melhorar a condição social de sua família: fez cursos profissionalizantes e de informática e concluiu a Educação Básica por meio da EJA, na escola da LBV. Já aos 60 anos, viu que podia sonhar ainda mais alto: “E, aí, eu entrei na faculdade, e o pessoal da LBV incentivava os meus filhos a seguir o mesmo caminho, e os dois foram para a universidade. Graças a Deus e ao suporte da LBV, nós três estamos formados (Eu, em Contabilidade; a Letycia, em Biblioteconomia; e o Hernany, em Produção Musical). Um servia de exemplo para o outro”.

De atendida a colaboradora

Atualmente, com uma jornada vitoriosa, Maria Solange tenta retribuir tudo o que recebeu. “Eu sou colaboradora da LBV e sempre falo que, se pudesse, faria muito mais, porque tudo o que fizer ainda será pouco para pagar o que a Instituição fez por mim e pelos meus filhos. A LBV, para mim, é uma grande família. A família que escolhi, com quem eu contei para tudo: apoio psicológico, estudo, educação, alimentação... Não tenho palavras para agradecer ao Paiva Netto, diretor-presidente da Instituição! Se eu tiver que falar mil e quinhentas vezes, todos os dias, ainda é pouco.”

 

Combate ao racismo pela Educação

O apoio recebido por Maria Solange da Graça refletiu-se de diversas formas no desenvolvimento dos filhos. A filha mais velha, Letycia Elizabeth, que tem curso superior em Biblioteconomia e é apresentadora da Boa Vontade TV*, conta alguns fatos relevantes nessa trajetória.

Ainda menina, ela e o irmão viram a mãe, que trabalhava em uma gráfica, vencer mais um desafio, após sofrer um acidente que culminou na perda do segundo dedo da mão direita. “Não foi o primeiro que perdeu, mas foi o que acompanhamos. Lembro-me do dia em que ela chegou em casa com a mão enfaixada; meu irmão e eu éramos pequenos, e foi algo traumatizante. Ela ficou debilitada”, relembra.

Para fazer o tratamento, após a cicatrização do ferimento, a mãe contou também com o apoio da escola da LBV. “A gente ficava até o limite do horário, porque ela estava fazendo fisioterapia, e as professoras cuidavam da gente. Não era [oferecida] apenas a parte escolar, havia um suporte emocional, acompanhavam a minha mãe, [queriam saber] se ela estava bem... Não é qualquer lugar que faz esse tipo de atendimento”, garante a jovem.

Letycia destaca que até o primeiro emprego dela e do irmão foi na LBV. Hoje, sente-se realizada em poder dizer ao público da Boa Vontade TV da relação de carinho e gratidão que construiu, ao longo dos anos, com a Instituição. “É diferente você falar de algo que viveu. Sempre que estou no ar falando sobre o trabalho da LBV, sobre como isso muda a vida das pessoas, estou contando algo sobre a minha própria história, sobre como a minha vida foi transformada. Quando convido alguém a colaborar [com a Organização], é um convite para que essas pessoas possam mudar a vida de outros indivíduos como, efetivamente, ocorreu comigo.”

Outro fato que lhe dá grande satisfação é “saber que o trabalho da LBV de representatividade, de primar pela diversidade, não é algo recente. É uma bandeira levantada há muito tempo; desde sempre essa foi uma questão importante, relevante para a Legião da Boa Vontade. Então, ser uma mulher negra na comunicação, lutando diariamente por aqueles que necessitam ter suas vozes ouvidas, é algo que me enche de orgulho”.

*Boa Vontade TV — Emissora da Super Rede Boa Vontade de Comunicação (rádio, TV, publicações e internet).