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Mãe, cinco filhos e um cômodo: a dura realidade de uma ocupação de SP

Família já precisou dividir o banheiro com 600 pessoas

Nota da equipe de reportagem: O conteúdo da matéria a seguir contém narrativas que podem inspirar você a ajudar pessoas que precisam. O relato aborda a temática das famílias sem teto que não têm moradia digna para sobreviver. A história é sobre uma mãe que não teve outra opção de moradia que não fosse uma ocupação no centro da cidade de São Paulo. Cheila do Nascimento decidiu compartilhar conosco a história da família dela e destacou como a LBV vem ajudando a mudar a realidade dos filhos e a dela. Esperamos que você goste. Boa leitura!

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Vivian R. Ferreira
Mais de 250 pessoas moram, atualmente, nos três andares do antigo hotel. 

Centro de São Paulo, cruzamento das Avenidas São João e Ipiranga. O local pode inspirar música e poesia para os mais de 2 milhões de pessoas que transitam por dia no centro da cidade, mas também guarda muitas outras histórias.

Passar por essa avenida histórica com prédios abandonados pode ser apenas trajeto para muitos, mas para outros o local é o ponto inicial e final de todos os dias.

Dentre os prédios comerciais e escritórios, o número 588 pode passar despercebido aos olhos de quem não imagina as histórias de superação que acontecem dentro dos seus portões.

Ocupação de prédios abandonados

A fachada ainda carrega o nome de prestígio do empreendimento que nos anos 1960 hospedava personalidades ilustres da época. Mas, essa foi a única herança deixada pelo hotel Columbia Palace para quem reside atualmente lá.

“O prédio estava abandonado há 20 anos quando a gente veio ocupar ele em outubro de 2010’’, conta Cheila do Nascimento, uma das primeiras moradoras.

Nota da equipe de reportagem: São tantos prédios na região central e é incrível como é fácil não conseguir reparar e pensar que um prédio como esse traz tanta riqueza em histórias e em lutas. Faz a gente se perguntar sobre que outras coisas passam batidas na nossa rotina se não olharmos atentamente e com compaixão.

600 pessoas para um só chuveiro

Morar em ocupação, diferente de morar em uma invasão, foi a solução encontrada por Cheila e por mais 80 famílias que residem há quase 8 anos no endereço. “No primeiro dia a gente dormiu em cima de portas que tinham sido arrancadas antes e foi bem complicado porque a gente não podia sair de lá por 24 horas porque, senão, a polícia entraria e a reintegração de posse seria feita”.

Vivian R. Ferreira
O cômodo conta com algumas peças improvisadas que foram doadas ou reaproveitadas do lixo.

Os dias seguintes foram de adaptações. A ocupação tinha, inicialmente, 600 pessoas, e precisava encaixar essa quantidade com os recursos reduzidos do local. “Nos primeiros dias foi bem difícil, tinha só um chuveiro lá embaixo para atender as pessoas. Era uma fila gigante para tomar banho”.

- Iluminação improvisada;

- Entulhos nos quartos;

- Utensílios deixados por usuários de drogas;

- Carcaças de pombos e ratos;

- Escadas e passagens bloqueadas;

- Mofo e degradações nas paredes.

Eram muitas as necessidades de limpeza e reforma que a comunidade do 588, quem mora no local, precisava fazer no prédio para que os antigos quartos de 28 metros quadrados do hotel começassem a se transformar no novo lar de cada família.

Sem chuveiro para cada um dos apartamentos, o banheiro para tomar banho é coletivo. Cada andar tem o seu para atender 14 famílias. “A gente trabalha muito a questão do coletivo aqui dentro. Cada um tem que respeitar o horário. Se a pessoa está tomando banho aí a gente espera um tempo limite de até 5 minutos, até por conta da parte elétrica para não sobrecarregar”, conta a mãe.

Vivian R. Ferreira
As crianças conferiam, animadas, os materiais escolares que ganharam da LBV para os seus estudos.

Cheila já estava grávida quando entrou na ocupação. Após dar à luz, foi diagnosticada com depressão pós-parto, condição que dificultava a sua procura por emprego. Para conseguir alguma renda para a casa, comprava roupas no brechó e revendia. Mesmo assim, a renda no final do mês era cerca de R$ 400 para sustentar a casa e os quatro filhos: “Era fazer bem um milagre mesmo, viu. Eu fazia conta, centavo por centavo, tinha o cofrinho do pão que toda moeda que sobrava e que eu encontrava ia para esse cofrinho, porque a prioridade para mim era garantir o pão e o leite dos meus filhos”.

Além da dificuldade financeira, o medo de uma reintegração de posse é constante. “Estamos enfrentando a 8ª tentativa de reintegração e estamos tentando comprar o prédio, mas não conseguimos colocar isso no papel”. Caso a tentativa não seja revertida, a mãe não tem outra saída a não ser ir para a rua.

- Restrições financeiras;

- Risco constante de ir morar na rua;

- Garantir a educação dos filhos;

- Deixar os filhos em local seguro enquanto procura emprego;

- Garantir que os filhos tenham o que comer.

Em meio a tantas incertezas e auto cobranças, a mãe, que sempre buscou o melhor para os filhos, vê surgir um porto seguro: a Legião da Boa Vontade.

Nota da equipe de reportagem: A Cheila fala abertamente sobre a realidade com os filhos. E quando ela compartilhou que se houvesse integração de posse eles teriam que morar na rua, ficamos impressionados com a convicção de porto seguro que a Maria Eduarda, a filha, reconhece na LBV, quando a sua primeira preocupação em morar na rua era saber onde ela poderia tomar banho para ir para a escola.

Uma ajuda que transforma!

Vivian R. Ferreira

Os filhos de Cheila, Maria Eduarda, 11, e Roberth Davi, 8, já conseguiram vaga e estudam no Instituto de Educação José de Paiva Netto, que faz parte do Conjunto Educacional Boa Vontade, localizado no bairro Bom Retiro, e a ajuda da LBV beneficia todos da casa: “A LBV não é um projeto que ajuda uma vida, é um projeto que ajuda uma família”, conta a mãe que faz questão de usar a camiseta que ganhou da Instituição.

Com os filhos na escola da LBV, as mudanças são visíveis e ganham maior projeção a cada ano. “É uma diferença muito grande. Antes eles estudavam em outra escola que não tinha esse tanto de atividade que tem na LBV. O primeiro ano da Maria Eduarda ela precisou correr atrás do conteúdo, porque na outra escola ela não tinha Inglês, não tinha Espanhol...  Antes ela era tímida e com as apresentações que ela faz na LBV ela também vem trabalhando isso, de demonstrar quem ela é”.

Na LBV ela ficou deslumbrada com LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e cresceu nela o sonho de ser repórter. Hoje ela tem uma expectativa da vida que ela não tinha antes.
Conta a mãe, emocionada

Orgulhosa do crescimento da filha, a mãe também comemora as oportunidades do filho que estuda na escola há um ano: “O Robert é uma pessoa que ajuda muito os outros e antes ele era mais agressivo, porque na outra escola dele não tinha um suporte para resolver certas situações e ele partia para a agressão para defender alguém. E quando ele foi para a LBV ele soube que podia ir direto na orientação e conversar com alguém para ajudar. Ele entrou com muitas dificuldades. No 1º ano ele não reconhecia alguns números e letras. No 2º ano, quando ele entrou, eu vi que ele evoluiu demais”.

No Conjunto Educacional Boa Vontade, os filhos da Cheila recebem:

- Kit completo de material pedagógico e uniformes para os estudos;

- Educação de qualidade;

- Refeição completa e nutritiva;

- Acompanhamento de uma equipe multidisciplinar para o seu desenvolvimento;

- Aulas de Inglês, Espanhol e LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais);

- Educação voltada para o desenvolvimento de valores úteis para a sociedade;

- Aulas que aguçam a criatividade: dança, caratê, música e informática;

- Ambiente seguro e sadio;

- Incentivo para o protagonismo infantil.

Vivian R. Ferreira
Além do abraço sincero, a foto registra, no canto esquerdo, um local que a mãe chamou de "cantinho da leitura". Apesar do pouco espaço, a mãe fez questão de organizar esse canto para que os filhos estudassem. Simples e eficaz, as crianças revezam para fazerem as suas lições.

O dia que faltou o leite e a filha disse que não estava com fome

Aos poucos, o lar da família de Cheila começou a ser colorido com o despertar de novas ideias. Os diferenciais da escola logo foram percebidos pela mãe: “Eu tenho uma admiração muito grande por uma das matérias que eu acho ser o fundamento básico: Cultura Ecumênica. Os meus filhos fazem oração, assim, de coração, eles se preocupam com o próximo, eles se preocupam muito com o ser humano, diferente do que vejo de outras crianças. Eles têm uma consciência emocional e esse comportamento, para mim, é de extrema admiração”.

Além do ensino, a mãe tem a certeza dos filhos estarem protegidos da sua maior preocupação: a discriminação por morarem numa ocupação:

Uma situação difícil é a discriminação que eles podem passar por morar num local que não é deles, esse lugar aqui ainda não é nosso. E no Instituto todos são iguais, ninguém sabe quem é quem ali e as condições são iguais para todos, porque o material é igual, o uniforme é igual. Eu gosto demais do trabalho que é feito lá na LBV, do respeito das crianças com as outras para elas não sofrerem bullying.
Cheila Nascimento
Vivian R. Ferreira
Pelos andares da ocupação, os filhos de Cheila encontram espaço para fazer suas próprias brincadeiras.

Nota da equipe de reportagem: Se já dói na criança não entender a razão de estar sofrendo comentários discriminatórios, de não entender porque alguns amigos não convidam para visitar sua casa, imaginem o que é para uma mãe carregar essa preocupação? Deve ser um alívio para a Cheila saber que eles não correm mais esse risco. Em um mundo onde as crianças têm reações cada vez mais violentas contra si mesmas por conta de bullying, cada criança protegida dessa realidade já constitui uma vitória.

Foi a consciência de respeito e de valorização ao próximo que fez Cheila se surpreender com o nível de renúncia que sua filha teve ao abrir mão do seu alimento para ver o outro irmão feliz: “Teve um dia de manhã que não tinha leite suficiente para os quatro e a minha filha disse: ‘Não, mãe, eu não estou com fome’. Aí ela deu o leite dela para o irmão mais novo. Aquilo acabou comigo no dia, eu não ter o básico, o necessário para dar para eles. Mas, o que me acalentava, o que me deixava menos preocupada, é que ela chegaria na LBV e teria uma alimentação decente”.

Vivian R. Ferreira

O cômodo dispõe de uma bicama que foi doada por uma das vizinhas da família. Para que todos durmam confortavelmente, a família arrasta o sofá para a porta e coloca os colchões lado a lado, no chão, para os cinco dormirem.

Conversei com um colaborador da LBV

Sabe um daqueles dias que você acorda e não imagina que iria transformar o dia de alguém? Foi assim que aconteceu com Cheila.

Segundo o seu próprio relato, ela nos contou emocionada: “Outro dia a gente saiu da escola e eles tinham uma consulta. Pegamos as duas conduções e, chegando lá, eu reparei que tinha um senhor que não parava de olhar o uniforme deles. Aí meu filho deu um tchauzinho, o senhor também, aí ele veio me cumprimentar e perguntou se os meus filhos estudavam nessa escola e eu respondi que sim e eu comecei a contar sobre as atividades deles, sobre a minha situação e o diferencial da LBV de acolher a família. Aí o olho dele foi enchendo de lágrimas e de início eu não entendi muito bem e aí ele me conta: ‘Olha, você acabou de dar o melhor presente que alguém poderia dar para mim nessa vida. Eu sou um colaborador da LBV e ter visto os dois encheu o meu coração de alegria”. 

Vivian R. Ferreira
Respeito e igualdade! Assim é o dia-a-dia de Maria Eduarda Machado, 11 anos, e Roberth Davi Machado, 8, na LBV.

O Mérito é Seu!

Eu quero agradecer a Deus pela vida das pessoas que ajudam a LBV, já que essas pessoas têm saúde para ajudar essas crianças, e pedir a Deus que dê muita saúde, que elas possam progredir cada vez mais e realizar todos os seus sonhos, assim como elas estão ajudando os meus filhos a realizar os sonhos deles. A pessoa tem que ter um coração muito grande para querer ajudar alguém mesmo sem conhecer. Muito, muito obrigada!

Vivian R. Ferreira

Assim como Cheila do Nascimento, muitas são as mães e comunidades em todo o Brasil que recebem o atendimento da Legião da Boa Vontade! Clique na região do Brasil que corresponde onde você mora e conheça outras histórias que mostram a transformação que a LBV leva para a milhares de famílias de baixa renda.

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