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Ensino remoto em tempos de pandemia

O desafio de educadores, estudantes e pais para se adequarem ao “novo normal”

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A suspensão das aulas presenciais nas escolas do mundo todo para o enfrentamento da Covid-19 apresentou um desafio nunca antes vivido: o ensino remoto em massa. No Brasil, com realidades bem distintas nas várias regiões do país, estão sendo precisos esforço e criatividade para disponibilizar essa modalidade de estudo. Exemplo disso tem ocorrido com os professores do Centro Educacional José de Paiva Netto, escola da Legião da Boa Vontade no Rio de Janeiro/RJ, que se depararam com essa necessidade de levar educação a distância a um público vindo das áreas mais pobres da capital fluminense.

Nesse contexto de emergência, em que é essencial resposta rápida, a escola da LBV em duas semanas preparou uma força-tarefa para ajudar os educadores a adequar as aulas à realidade dos educandos. Para tanto, foi elaborado um Plano de Ação Pedagógica, organizado por videoconferência, e, em seguida, os professores e a coordenação reestruturaram o currículo, priorizando os conteúdos a serem trabalhados em cada disciplina.

O Centro Educacional da LBV, no Rio de
Janeiro/RJ, está localizado na Av. Dom
Hélder Câmara, 3.059, Del Castilho.

Apesar de saber que as aulas remotas não conseguirão contemplar com a mesma abrangência o conteúdo da matriz curricular, passada a fase de isolamento social, será feita uma análise diagnóstica, a fim de levantar o que será revisitado, evitando maiores prejuízos aos estudantes. A supervisão pedagógica da LBV entende que, durante crises sanitárias, como a que está em curso em nosso país, há grande perigo de evasão escolar. Por isso, todo o esforço da Instituição para manter crianças e adolescentes com os vínculos fortalecidos com os professores e a escola.

Márcia Quesada

Com essa determinação de não deixar ninguém para trás, os educadores do Centro Educacional da Entidade ligaram para todos os pais e responsáveis dos educandos que frequentam a unidade para decidirem a melhor ferramenta a ser utilizada, o que ajudou a entender a dificuldade enfrentada por muitas famílias no acesso à internet e a equipamentos tecnológicos. “Escolhemos o WhatsApp porque é a ferramenta mais comum entre os que têm aparelho de celular. Às famílias que possuem o aparelho, e não tinham o aplicativo, a escola ensinou a baixar o app”, pontua Márcia Quesada, diretora da escola.

Ela conta que a unidade de ensino optou por colocar os vídeos no YouTube para não sobrecarregar a memória dos celulares: “Enviamos pelos grupos das turmas que foram criados no WhatsApp apenas o link dessas videoaulas, a fim de que tenham a possibilidade de assistir aos vídeos sem a necessidade de baixá-los e possam ver as aulas quantas vezes acharem necessário”, completa a diretora.

Após algum tempo do início do envio das videoaulas, o passo seguinte foi dado: as orientadoras educacionais entraram em contato com todas as famílias (cerca de 540) para saber se estavam tendo dificuldades com os links. Essa ação foi muito importante, pois com ela foi possível identificar vários números de telefones que estavam desatualizados, o que resultava no não recebimento do material. No mesmo dia, os cadastros foram refeitos e os links dos vídeos anteriores encaminhados novamente para os que não tinham obtido o acesso.

Arte: Helen Winkler

A escola também disponibilizou as apostilas usadas pelos estudantes: as famílias foram buscá-las na escola para que seus filhos pudessem acompanhar os conteúdos dos vídeos e nelas realizar os exercícios indicados pelos professores. Na Educação Infantil (crianças até 5 anos de idade), as videoaulas têm ainda como objetivo que o vínculo com os educadores seja mantido, de modo que a readaptação dos pequeninos, no retorno presencial, seja mais fácil. Para essa faixa etária, a apostila foi disponibilizada, e as crianças podem explorar suas atividades de forma lúdica, recortando e colorindo, sem o compromisso de realizar a tarefa de forma dirigida ou formal.

Com o intuito de incentivar a continuidade dos estudos e contribuir para o afastamento social, tão necessário neste período de pandemia do novo coronavírus, a LBV entregou, no mesmo dia em que as famílias receberam o material didático, cestas de alimentos e kits de limpeza, levados para as casas dos estudantes com muita gratidão de seus responsáveis. Nestes momentos em que os benefícios oferecidos pela Instituição são retirados pelos familiares dos alunos, ação que tem se repetido nos três últimos meses, todos têm respeitado as normas de distanciamento e as medidas de higiene orientadas pelo Ministério da Saúde, como o uso de máscaras, luvas e álcool em gel 70%.

Fotos: Arquivo pessoal

Central de dúvidas
Outra iniciativa para aproximar professores e educandos foi a criação de uma central de dúvidas. “Fizemos um ‘combinado’ com eles para que as dúvidas sobre o conteúdo apresentado ou sobre a atividade direcionada fossem encaminhadas pelo próprio WhatsApp. Essas questões são esclarecidas pelos educadores em nova explicação, que é repassada para todos da turma, pois pode ser uma dificuldade de outros alunos também”, detalha Márcia.

Educadores: emoção e esforço para se reinventar

Arquivo pessoal
Valéria Castro
Valéria Castro, orientadora educacional do Ensino Fundamental (séries iniciais), afirma que, graças ao apoio mútuo entre professores, orientadores e coordenadores, foi possível capacitar rapidamente a equipe para as aulas remotas. Ela destaca que o trabalho de contato telefônico com os responsáveis dos estudantes, além de ser fundamental para o suporte às famílias também na questão emocional, tem sido importante para identificar se a proposta está no caminho certo. “As educadoras estão elaborando aulas dinâmicas, atrativas, não só com o concreto (o conteúdo pedagógico), mas também com o lúdico. Assim, conseguem incentivar e cativar, cada vez mais, os alunos. O sentimento é fortemente colocado nesses materiais, expressando a saudade que estamos de todos os alunos, e isso torna a aula mais pessoal”, ressalta.

Vencendo inseguranças
As dificuldades enfrentadas pela pedagoga Silvana de Oliveira Silva, com quase 20 anos de profissão, ilustram bem a resiliência necessária para a realização do trabalho. Ela leciona para duas turmas do 1º ano do Ensino Fundamental da escola da LBV e, apesar da longa experiência, disse ter ficado, “no início, apavorada com a proposta de produzir videoaulas”. As inseguranças foram várias: “[Não sabia ao certo a] forma como eu deveria falar, me posicionar... Questões relativas ao áudio, à luz, enfim, tive vários questionamentos”.

Arte: Helen Winkler
Arte: Helen Winkler

Graças a um plano pedagógico bem elaborado e à parceria entre os professores do grupo, compartilhando experiências tecnológicas, essas dúvidas foram aos poucos sanadas. “Às vezes, eu faço dez gravações para uma [aula] sair da forma que planejei. Isso é cansativo, porém, estou conseguindo superar essas dificuldades, com o apoio dos meus colegas de trabalho, que me ajudam a traçar várias estratégias. Estamos sempre nos comunicando e trocando ideias para fazer aulas cada vez mais interessantes”, declara a educadora.

Silvana diz que superar esses problemas deu a ela uma nova perspectiva: “Sinto-me grata por estar me reinventando. Nunca imaginei que realizaria o meu trabalho neste formato; fiz uma nova versão de mim mesma. Estou feliz por estar ajudando a mudar, um pouquinho que seja, a rea­lidade destas crianças, neste momento tão difícil”. E completa a educadora: “Outro dia mesmo, recebi a devolutiva da mãe de uma aluna, agradecendo pelos vídeos, dizendo que estão espetaculares, que a menina está amando as aulas, que gosta de confeccionar os jogos lúdicos que apresento nas videoaulas como sugestão e que ela já está lendo algumas palavrinhas. Eu fico emocionada, porque mostra que todo o meu esforço e o meu comprometimento estão sendo reconhecidos”.

Arte: Helen Winkler
Arquivo pessoal

A importância de pais compromissados com o processo
Do outro lado, estudantes e pais também tiveram que mudar seus hábitos na continuidade dos estudos neste período pandêmico. Viviane Cristovam de Paula — mãe dos trigêmeos Kaylane, Kauã e Kaio, do 2º ano do Ensino Fundamental — que o diga. Ela lembra que contou com o apoio dos educadores da LBV para organizar o aprendizado em casa, mantendo um horário fixo para cada criança. “No começo, foi um pouco difícil, porque na escola eles têm uma boa estrutura, mas agora estou me adaptando a este novo mundo”.

Segundo a mãe, os três estão ansiosos pelo retorno ao Centro Educacional da LBV: “Os meus filhos sentem muita falta da escola, dos professores, dos amiguinhos, porque a escola é um lugar que eles amam, aprendem e brincam”.