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Educar para promover a igualdade

Como o diferencial da Espiritualidade Ecumênica encoraja meninas a despontar no mundo do trabalho

Vivian R. Ferreira

Neste exato momento, em algum lugar, perto ou distante de nós, é possível que alguma estudante tenha sido desencorajada a fazer um curso na área em que deseja atuar. Infelizmente, é comum alguém opinar: “Ah, mas essa profissão não é para mulheres. Tente algo menos complicado para seguir como carreira”.

Vivian R. Ferreira

Suelí Periotto é supervisora da Pedagogia do afeto e da Pedagogia do Cidadão Ecumênico e diretora do Instituto de Educação José de Paiva Netto, em São Paulo/SP. É doutora e mestre em educação pela PUC-SP, conferencista e apresentadora do programa Educação em Debate, da Super Rede Boa Vontade de Rádio.

 

Tal comentário e outras afirmações semelhantes a esse são inaceitáveis, pois podem ser captados pelas crianças e pelos jovens como verdadeiros, pôr em risco a espontaneidade deles e desenvolver em seu íntimo o receio de eles serem quem de fato são, isto é, indivíduos com sensibilidades e sonhos, independentemente do gênero.

Para impedir que quaisquer conceitos sexistas rodeiem a infância e a juventude, é necessário elevar e fortalecer a autoestima de meninas e de meninos nas famílias e nas escolas, em uma parceria que realce características naturais, prestigie e elogie as expressões particulares deles. Esse é um dos cuidados observados na linha pedagógica da Legião da Boa Vontade, aplicada na rede de escolas e nos Centros Comunitários de Assistência Social da Instituição.

De acordo com o diretor-presidente da LBV e idealizador desta linha pedagógica, o educador José de Paiva Netto, é preciso empreender boas iniciativas a fim de que a sociedade seja mais acolhedora e que se motivem a infância e a juventude a descobrir o próprio potencial. Em seu artigo “Máquina humana e óleo do sentimento”, ele adverte: “O afeto para as crianças e o respeito aos jovens são semelhantes a uma máquina funcionando: em uma parte das rodas dentadas, a mente, a lógica; em outra, a Alma, o sentir, que nos impede de nos tornar cada vez mais selvagens! Ora, os dentes da roda vão se encontrando e fazendo o mecanismo girar. Contudo, se você não põe nessa engrenagem o óleo da Fraternidade, da Solidariedade, da Misericórdia, da Compaixão, tudo grimpa, trava, cria ferrugem e entra em falência!”

Esse alerta do dirigente da Entidade colabora para uma pertinente reflexão acerca de afirmações negativas e mesmo preconceituosas, capazes de gerar efeitos danosos nas novas gerações, naturalmente cheias de entusiasmo e determinadas a ajudar a melhorar o planeta. Utilizar esse “óleo do sentimento”, conforme nos sugere o escritor Paiva Netto, pode fazer toda a diferença na vida pessoal e no espaço escolar se considerarmos como “dentes da roda” o desenvolvimento cognitivo e os aspectos ligados à sensibilidade dos indivíduos que interagem em um estabelecimento de ensino. Esses fatores, aliados à vivência de valores espirituais, ecumênicos e éticos, promovem o bom relacionamento e a manifestação livre de cada um.

Uma visão além do intelecto

Vivian R. Ferreira
No Centro Educacional José de Paiva Netto, localizado em Del Castilho, zona norte do Rio de Janeiro/RJ, meninas e meninos têm a chance de aprender e treinar judô no contraturno escolar. Dezenas de atletas já participaram, inclusive, de competições importantes, como o Campeonato de Abertura da Liga Confederada de Judô — Rio de Janeiro.

A proposta educacional da Legião da Boa Vontade é formada pela Pedagogia do Afeto, destinada a crianças de até os 10 anos de idade, e pela Pedagogia do Cidadão Ecumênico, aplicada nos planejamentos direcionados a educandos a partir dos 11 anos. O diferencial dessa linha educacional criada pelo educador Paiva Netto é a “Educação com Espiritualidade Ecumênica”, a fim de nortear os educadores a ter uma “visão além do intelecto”, ao preparar planejamentos que aliem valores espirituais, éticos e ecumênicos ao saber intelectual como forma de enriquecimento do conteúdo pedagógico oferecido. Isso provoca nos alunos reflexões sobre o sentido da existência, o autoconhecimento e os sentimentos universais.

Nas escolas da LBV, a junção do conteúdo do currículo regular a contínuos debates acerca de aspectos sociais, éticos e filosóficos estimula nos discentes um olhar ampliado sobre quaisquer temas, sem tabus ou preconceitos, reforçando uma postura universal, agregadora, dos pensamentos diversos. Assim, espera-se fortalecer o Espírito eterno e único de cada educando, o qual tem as próprias particularidades, sem que sejam feitas comparações de gênero que resultem em tipo de exclusão.

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Incentivam-se nas salas de aula da rede de ensino da Instituição discussões fraternas — e nem por isso menos inflamadas —; e, assim, com a mediação de professores que entendem que estão sendo testemunhas do desenvolvimento diferenciado dos estudantes, de cada personalidade, uma exposição contínua do pensamento pessoal de meninas e de meninos, sem que eles tenham receio de compartilhar suas ideias.

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O fato de os educadores das nossas escolas apoiarem os discentes em sua maneira de ser, ouvirem o que sentem e pensam e respeitarem os sonhos deles resulta no fortalecimento interno desses alunos, encorajando-os a manter as próprias opiniões e a não ter receio de expressar os sentimentos. Especialmente para as meninas, há o reforço de que elas devem ir atrás da carreira com a qual se identificam, desenvolver a resiliência para os momentos de desafio, e sem postura de arrogância estarem dispostas a escutar os diferenciados pontos de vista, de forma que integrem uma geração ecumênica, apta a dizer a um garoto: “Se sentir vontade, chore! Conte comigo! Estarei sempre aqui”. Se uma menina estiver sonhando com uma trajetória menos comum, que um dos colegas das escolas da LBV possa declarar, agora ou quando estiver adulto, em apoio a ela: “Ah, mas essa profissão é excelente! Isso mesmo! Siga sua vocação!”

Escolhas profissionais independem do gênero

Em bate-papo à revista BOA VONTADE, Thaynara Paixão e João Pedro Monteiro, que cursaram toda a Educação Básica no Conjunto Educacional Boa Vontade, em São Paulo/SP, explicaram de que modo a linha pedagógica da LBV foi responsável pelo empoderamento deles e ressaltaram que, graças ao ensino diferenciado o qual tiveram, têm vencido muitas barreiras, inclusive aos estereótipos de gênero, que ainda insistem em determinar que certas profissões são para homens e outras só para mulheres.

Vivian R. Ferreira
Thaynara Paixão e João Pedro Monteiro, ex-alunos do Conjunto Educacional Boa Vontade, em São Paulo/SP.

Thaynara Paixão, de 20 anos, estudante do segundo semestre de Biomedicina, na Universidade São Judas Tadeu, na capital paulista.

Como superar a desigualdade de gênero?

R.: Nunca se deixe intimidar! Quem faz o futuro é você. Independentemente de o curso ser focado mais para homens, você pode ir lá e fazer a diferença.

De que maneira a LBV favoreceu toda essa determinação?

R.: Na Legião da Boa Vontade, os educadores sempre tratam os alunos da mesma forma, independentemente do sexo ou de outra característica. Recordo-me bastante das minhas aulas de caratê e de dança. Estava na 1a série do Ensino Fundamental e era a única menina que lutava caratê. Todas as outras faziam dança, e em nenhum momento fui impedida de participar ou tive algum problema pela minha escolha. O tratamento dado a mim era igual ao dos meninos que lutavam comigo.

Qual o diferencial da educação oferecida pela Entidade?

R.: Além de o conhecimento das disciplinas regulares ser passado com a melhor didática pelos professores, aprendi a ter bom convívio com as pessoas, a respeitar as diferenças, a ser mais criativa, a preservar a Natureza, aprendizados esses que eu não teria fora da LBV.

João Pedro Monteiro,
de 17 anos, estudante do primeiro semestre de Tecnologia em Jogos Digitais, na Universidade Nove de Julho.

Relate sua experiência nas aulas de dança, na LBV.

R.: No início, fiquei meio receoso. Todos os outros participantes eram meninas. Algumas pessoas da 1a e da 2a séries [do Ensino Médio] falaram: “Nossa! Esse menino dança?” Só que, conforme a gente foi interagindo, elas foram percebendo que não tem esse estereótipo de “Ah, menino não sabe dançar!” ou “Dança não é para menino!” As meninas me acolheram, e foi bem mais tranquilo. A professora me acolheu desde o início.

Foi importante estudar na Instituição?

R.: A escola favoreceu-me ter um pensamento mais aberto sobre tudo, conviver com as pessoas e aceitá-las do jeito que são. Uma menina que ama jogar futebol, [mesmo] que não seja totalmente aceita, na LBV é apoiada. As aulas de Cultura Ecumênica e de Convivência permitem que a gente abra nossa mente para acolher a todos e [ensinam] a ter essa empatia. Agradeço muito aos professores, [aos] monitores e a todo mundo envolvido no âmbito escolar. (...) Vejo o educador Paiva Netto como um pai, porque ele criou este colégio e permitiu esta estrutura e convivência entre a gente. Agradeço muito a ele, [pois] ajudou muitas pessoas, direta ou indiretamente. (...) Com a construção desta escola, abriram-se várias portas para minha família e para mim, [o que] nos ajudou [a melhorar] financeiramente.