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Educação ecumênica gera inclusão

Declaração apresentada pela LBV e traduzida pela ONU para os idiomas oficiais do organismo internacional.

Vivian R. Ferreira

Christina, de 9 anos, em aula de Artes, ministrada pelo professor Samuel Pires, na escola da LBV no Rio de Janeiro/RJ.

Relatório da Legião da Boa Vontade, no qual a Instituição compartilha suas boas práticas relativas ao tema “O empoderamento das pessoas e a conquista da inclusão e da igualdade”. Essa é a questão central da Reunião de Alto Nível do Conselho Econômico e Social (Ecosoc, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas em 2019, realizada de 16 a 19 de julho, na sede desse organismo internacional em Nova York, nos Estados Unidos. No texto, a LBV defende a Educação com Espiritualidade Ecumênica como fator determinante para que possa haver o exercício pleno da cidadania global. A seguir, a transcrição do documento, traduzido pela ONU em seus idiomas oficiais.

Nesta declaração, nós, da Legião da Boa Vontade (LBV), apresentamos contribuições referentes ao tópico “O empoderamento das pessoas e a conquista da inclusão e da igualdade”, tendo como respaldo a experiência de quase 70 anos da LBV do Brasil, bem como na atuação longeva da LBV da Argentina, da Bolívia, do Paraguai, do Uruguai, de Portugal e dos Estados Unidos. Também compartilhamos as boas práticas da Instituição na preparação de jovens com perfil não acadêmico ou com necessidades específicas de aprendizagem para que saibam enfrentar as drásticas mudanças ocorridas no mundo do trabalho nas últimas décadas.

Em 2018, prestamos 15,5 milhões de atendimentos e benefícios nas áreas da educação e da assistência social, tendo impactado positivamente 474.749 pessoas em situação de vulnerabilidade social por meio das ações empreendidas em nossas quase cem unidades, onde são realizados também programas e serviços no campo da comunicação social. Esse amplo trabalho é sustentado exclusivamente por doações de pessoas físicas, muitas delas provenientes das mesmas comunidades amparadas.

PROMOVENDO IGUALDADE
O baixo desempenho escolar é problema muito sério, especialmente no momento atual, em que estão desaparecendo as atividades manuais e industriais tradicionais. As pessoas com dificuldade para desenvolver as próprias habilidades e competências têm menos oportunidades de se inserir e de progredir em setores da economia em expansão, entre estes o da saúde, o do ensino e o de produtos intensivos em tecnologia. O quadro agrava-se quando a família desses indivíduos é de baixa renda, dispondo, por isso, de menos recursos econômicos para superar
os desafios.

A ação da LBV tem, entre outras finalidades, o propósito de colaborar para o cumprimento das diversas metas do quarto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, sobretudo o da meta 4.5, qual seja: “Até 2030, eliminar as disparidades de gênero na educação e garantir a igualdade de acesso a todos os níveis de educação e formação profissional para os mais vulneráveis, incluindo as pessoas com deficiência, povos indígenas e as crianças em situação de vulnerabilidade”. São destacadas neste documento três medidas práticas para o alcance da referida meta: constituir uma equipe multidisciplinar, aplicar os programas LBV — Potencializando Habilidades e LBV — Alfabetização e Raciocínio.

A equipe multidisciplinar varia conforme o perfil da unidade de atendimento da Instituição, sendo, geralmente, formada por assistentes sociais, pedagogos e profissionais da saúde, entre eles psicólogos, nutricionistas e enfermeiros. Nas escolas, parte dos pedagogos é especializada em inclusão e atua lidando diretamente com os estudantes ou proporcionando suporte aos professores regulares.

Por essa experiência, a Legião da Boa Vontade foi convidada a apresentar, em 4 de março de 2019, no Centro de Educação de Cork, na Irlanda, suas boas práticas pedagógicas na Educação Básica. Professores, diretores e inspetores de Educação Especial desse país conheceram os resultados da linha pedagógica aplicada pela rede de ensino da Instituição na América Latina. O convite partiu do professor Trevor O’Brien, membro do Departamento de Psicologia Educacional e Educação Inclusiva da Mary Immaculate College — universidade em Limerick —, depois de visitar o Conjunto Educacional Boa Vontade, em São Paulo/SP, em 7 de novembro de 2018.

PROGRAMA LBV — ALFABETIZAÇÃO E RACIOCÍNIO
Esse programa acompanha crianças na faixa etária dos 6 aos 8 anos e em processo de alfabetização, porém com dificuldades acentuadas de aprendizagem. Seu objetivo é desenvolver nas meninas e nos meninos atendidos as habilidades cognitivas de leitura, de escrita e de raciocínio lógico-matemático, além de fortalecer a autoestima e a confiança deles. Afinal, esse é um período decisivo em toda a vida escolar do indivíduo.

O trabalho, realizado com o apoio da família dos atendidos, também tem por finalidade fornecer subsídios ao corpo docente. A partir de análise detalhada das principais características pedagógicas, psicomotoras e de socialização de cada criança, é traçado um perfil de desenvolvimento global personalizado, a fim de direcionar eventuais intervenções para as reais necessidades dela. Posteriormente, educadores observam os estudantes assistidos no turno escolar; evidenciam o que pode ser melhorado e o que deve ser valorizado; e desenvolvem as habilidades deles por meio de jogos, de brincadeiras e de recursos tecnológicos que estimulam o aprendizado, aumentam a autoestima e promovem a reflexão sobre a importância da vivência e da propagação dos bons valores universais.

PROGRAMA LBV — POTENCIALIZANDO HABILIDADES

Destinado a crianças e a adolescentes que necessitam de adequações educacionais especiais por estar em situação de inclusão escolar (mediante diagnóstico de profissionais especializados), o Programa LBV — Potencializando Habilidades propicia aos participantes atendimentos individuais e coletivos, que buscam garantir o respeito a eles e às diferenças, por intermédio de ações que contribuem, efetivamente, para o processo de aprendizagem deles. A iniciativa conta com professores exclusivos em cada nível de ensino (um docente designado para até 40 estudantes) e monitores/tutores, que fazem acompanhamento individualizado dos educandos os quais apresentam deficiência intelectual ou autismo.

Na Educação Infantil, é posto em prática ainda um projeto de intervenção precoce em crianças que têm defasagens significativas para a idade delas ou estão em processo de avaliação diagnóstica. Nos Ensinos Fundamental e Médio, é dado atendimento educacional especializado aos adolescentes que dele necessitem, além de suporte aos professores, fornecendo-lhes as adequações necessárias referentes a cada diagnóstico.

Aos educadores, o programa ainda proporciona treinamento continuado, atendimentos individuais e apoio no planejamento das aulas e nas adaptações curriculares; interage com profissionais parceiros que acompanham os estudantes; avalia as aulas; e orienta os docentes na adoção de estratégias eficazes para atender às necessidades dos educandos.

Para os pais ou responsáveis dos participantes, a iniciativa promove encontros por agrupamento de diagnósticos, treinamento para colaboração no desenvolvimento das funções executivas dessas crianças e desses adolescentes e atendimentos individuais. No que concerne aos alunos, é elaborado um plano educacional individualizado; realizam-se sondagens, avaliações, observação em diferentes espaços, mediação disciplinar, estudos de caso, acompanhamento nas consultas médicas e encontros com terapeutas; bem como se dá apoio educacional especializado no horário inverso ao escolar.

PEDAGOGIA DO AFETO E PEDAGOGIA DO CIDADÃO ECUMÊNICO, DA LBV

Cremos que as escolas devem ser ambientes acolhedores para todos. O orbe muda rapidamente, e é necessário que os estabelecimentos de ensino respondam aos anseios das novas gerações. Sobre esse cenário, afirma o educador José de Paiva Netto, diretor-presidente da Legião da Boa Vontade: “O mundo inteiro fala em sustentabilidade, mas firmada em quê? Em geral, num pensamento econômico que sobrevive pela avidez, não liquidando apenas as criaturas humanas por força do desemprego, da fome em várias regiões do planeta, no entanto, igualmente pela carência de instrução, que nega melhor perspectiva à juventude. Contudo, existem, por todo lado, esforços de pessoas decididas a corrigir tal situação, que trava o crescimento de muitos países. E não basta instruir. É preciso educar, reeducar! Em diversos lugares onde a economia se tornou mais forte, após certo tempo, por falta de maior investimento nos princípios espirituais e éticos, a violência, que diminuíra, ressurge, advinda tantas vezes da arrogância contra os que têm menos em suas fronteiras ou fora delas”.

É na busca de um ensino abrangente que a linha pedagógica da LBV, tendo em vista as diretrizes do dirigente da Instituição, educa com Espiritualidade Ecumênica, segundo a proposta dele, que se compõe da Pedagogia do Afeto (destinada a crianças de até os 10 anos de idade) e da Pedagogia do Cidadão Ecumênico (a partir dos 11 anos). Essa proposição prevê que a instrução intelectual deve ser iluminada pelos bons sentimentos do indivíduo, de acordo com o que expressa o lema criado por Paiva Netto para a rede educacional da Entidade: “Aqui se estuda. Formam-se cérebro e coração”.

A fim de que fosse aplicada aos conteúdos da matriz curricular essa Espiritualidade Ecumênica, a rede de ensino da LBV, em conformidade com conceitos da pedagogia criada pelo educador Paiva Netto, desenvolveu o MAPREI (Método de Aprendizagem por Pesquisa Racional, Emocional e Intuitiva). Essa metodologia objetiva aliar, de forma integral, aos saberes pedagógicos conhecimentos religiosos, filosóficos, científicos, desportivos e artísticos. Com isso, evitam-se interpretações reducionistas sobre assuntos, instituições, tradições, culturas e áreas do saber humano.

Desse modo, é proposta a inserção de contínuos debates no currículo regular relativamente a questões sociais, éticas, políticas e filosóficas. O foco principal dessa proposição é incentivar os alunos a ter um olhar ampliado e livre de preconceitos sobre quaisquer temas, fomentando uma postura ecumênica e agregadora de pensamentos diferentes.

Trata-se de um exercício educativo, que carrega em si múltiplas oportunidades de cooperação entre os envolvidos no ambiente escolar e estimula os estudantes a alcançar “uma visão além do intelecto”. O método aplicado na rede de ensino da Instituição tem o propósito de alargar o entendimento dos alunos acerca dos tópicos pesquisados e/ou discutidos e fortalece o respeito e a valorização dos saberes milenares dos antepassados, incorporados nas múltiplas culturas da sociedade.

Na Legião da Boa Vontade, acreditamos que a soma dos valores da Espiritualidade Ecumênica à intelectualidade favorece nos indivíduos maior conscientização sobre as consequências das ações humanas. Exemplo disso se dá quando refletimos com os alunos acerca da sustentabilidade, ao analisarmos o que se constrói no presente e os desdobramentos de nosso comportamento atual no futuro. Afinal de contas, a ausência de iniciativas no Bem na atualidade pode não só aumentar a responsabilidade das gerações que virão, mas também resultar em sérios impactos no orbe terrestre e nas populações. Por meio dessas reflexões, o educando motiva-se a fazer a si mesmo questionamentos do tipo “O que minhas atitudes na comunidade na qual estou inserido estão eternizando nos outros e em mim?” ou “Que marcas e/ou legado deixarei ao mundo?”.

POSTURA SOLIDÁRIA
Graças à utilização de uma perspectiva interdisciplinar, os conhecimentos das ciências humanas, biológicas e exatas são agregados à bagagem de vida dos estudantes. Dessa maneira, incentiva-se que os conteúdos assimilados sejam transmitidos, em uma atitude cidadã, à comunidade à qual esses educandos pertencem. Assim, não se trata apenas de, em um ou outro momento específico, trabalhar temas ligados à conservação do meio ambiente, ao cuidado com o social ou ao progresso da localidade onde os alunos estão inseridos.

Cabe ainda ressaltar que, nos planejamentos pedagógicos, se levam em conta igualmente os aspectos intelectuais, filosóficos e sociais dos conteúdos a serem abordados, favorecendo-se, dessa forma, a educação integral dos estudantes, de acordo com a premissa de que todas as pessoas são valiosas, independentemente da situação social ou financeira em que se encontram. Existe valor em todos os indivíduos e nos grupos, inclusive naqueles que foram considerados por séculos incapazes de aprender, entre os quais crianças, mulheres, cidadãos com deficiência, estrangeiros, pobres e doentes. Para despertar o potencial de cada ser humano, é necessário compreender, respeitar e valorizar o repertório cultural e as crenças ou descrenças dele. Ensinar sob essa visão educacional do dirigente da LBV implica não somente fomentar o pensamento crítico, mas também estimular a postura solidária, a fim de que haja engajamento nas ações de transformação para melhor da realidade planetária.

Os resultados positivos dos passos iniciados em sala de aula podem ser observados na escolha profissional feita pelos estudantes egressos da escola e nos cuidados reproduzidos na casa deles e/ou na comunidade em que estão. Segundo afirma o propositor da proposta pedagógica da Instituição, “Educação: tema sempre em pauta. Urge ser difundido e encarado, por todos nós, como a trilha segura que encurta a distância social entre as classes. É também eficiente antídoto contra a violência, a criminalidade, as doenças e tudo o mais que anula o crescimento salutar de um povo”.

Com essa mensagem, cumprimentamos os participantes do Fórum Político e da Reunião de Alto Nível do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. Pondo-nos à disposição para compartilhar em profundidade as experiências da LBV com os interessados, desejamos que esses fecundos debates se transformem em medidas concretas em prol dos mais vulneráveis.