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Da luta na infância à força para socorrer

"Quando descobri a LBV, eu me apaixonei por ela", diz Renata Lima, gestora em Maceió (na foto à direita).

A trajetória da recifense Renata Cristina da Silva Lima, 31 anos, que hoje reside em Maceió/AL, certamente renderia um bom roteiro de filme. Tendo superado uma infância e adolescência de grandes desafios socioeconômicos e afetivos, ela fez dessas experiências o combustível para suas realizações no presente.

Arquivo BV

Na linha de frente do trabalho social da LBV na capital alagoana, como gestora do Centro Comunitário de Assistência Social da Instituição, teve dificuldades para nos conceder a entrevista. No dia em que conversou com a nossa reportagem, era véspera de uma das cinco viagens que ela e a equipe fariam a municípios no sertão de Alagoas (Traipu, Feira Grande, Arapiraca, São Sebastião e Piaçabuçu), totalizando mais de 2.300 quilômetros percorridos, entre ida e volta, apenas em abril.

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Naquela ocasião, ficou até tarde na unidade da LBV fazendo os últimos preparativos para levar cerca de 200 kits pedagógicos a duas escolas da zona rural no povoado Paciência, em Piaçabuçu. Só no último mês, a equipe da unidade — além de beneficiar as 170 famílias atendidas mensalmente pelos serviços da Entidade com cestas verdes (hortaliças e frutas) e de alimentos não perecíveis e kits de limpeza — entregou mais de 10 mil quilos de doação em apoio a parceiros de comunidades e escolas nas localidades citadas anteriormente.

Apesar do natural cansaço da jornada, Renata era puro entusiasmo. E quando perguntamos qual combustível que a movia, ela declarou:

“Eu acredito que a Compaixão e a Solidariedade nos levam à ação. Não se trata de sentir pena, mas, sim, de demonstrar respeito, de tomar alguma atitude para amenizar aquilo que o outro está sentindo”.

Ao refletir sobre a ação que estava prestes a ocorrer, cercada sempre pelo grande diferencial das atividades realizadas pela LBV, que se caracterizam pela Caridade Completa (a do corpo e da Alma), completou: “Esse trabalho não é só para levar o alimento, é também para ouvir, dar uma palavra de conforto a essas pessoas. Retribuo com gratidão o que recebi um dia. E esse sentimento é para o resto da minha vida”.

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Para compreender melhor essas afirmações, é preciso voltar no tempo, mais precisamente há mais de três décadas, época em que sua mãe teve de deixá-la e mais três irmãos aos cuidados de amigos por não poder sustentá-los. O reencontro da família só foi possível sete anos depois, mas ainda cercado de privações e de instabilidades. A genitora de Renata conseguiu por um breve período manter uma diminuta casa, porém logo foram despejados por falta de pagamento do aluguel. Foi aí que começou uma longa peregrinação por locais diversos até que conseguiram um terreno em uma invasão.

Arquivo BV

“Lá, construímos uma casa de tábua, saíamos pegando pedaços de madeira nas esquinas, em marcenarias, e pedindo prego para as pessoas. (...) Nós levantamos uma moradia sem telhado, era uma lona preta que a cobria. Não esqueço que, quando chovia, a gente pegava pedaços de madeira e empurrava a água para fora, porque, se ela acumulasse, iria afundar o chão, que era de terra batida. Havia só uma cama para todo mundo dormir, aliás era apenas a parte de cima da cama, tinha uns tijolos nos pés. Minha mãe dormia nos banquinhos, no chão. Passávamos muitas dificuldades para comer; às vezes, ela ficava sem comida, lembro-me bem.”

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Com muita determinação, disposição para a lida e o apoio de pessoas generosas, a família foi vencendo cada obstáculo. Mas a grande virada na vida deles ocorreu quando Renata assistiu na televisão a uma reportagem na qual descobriu que a LBV em Recife abria vagas para o curso de informática. Logo, ela se inscreveu e, pouco tempo após concluir as aulas, conseguiu trabalho na Instituição.

“Quando atendi a primeira criança na atividade da LBV, senti uma emoção tão forte que fiquei toda arrepiada, passei o resto do dia agradecendo a Deus em minhas orações”, recorda.

A partir daí, não parou mais. Cursou duas faculdades, a de Recursos Humanos e a de Administração, e abraçou as oportunidades de crescimento.

“Quando eu entrei na LBV, estava perdida, sem saber o que queria fazer, fui mergulhando na área da Assistência Social, aprendendo a lidar com pessoas e acabei me conhecendo melhor para passar mais conhecimento para os outros. Quando descobri a LBV, eu me apaixonei por ela, era o lugar para ficar o resto da minha vida. Mesmo não sendo mãe biológica ainda, consigo ser mãe de outras formas. (...) A Solidariedade transforma, cura as feridas, dá um norte para as pessoas”, finaliza.