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Mãe vence envolvimento com drogas na adolescência e reconquista família

Pelos filhos, Larissa largou as drogas e encontrou, com o apoio da LBV, um novo caminho. O amor pelas crianças impulsionou a transformação.

A triste realidade das ruas transforma as pessoas e Larissa* confirmou essa premissa ainda cedo. Aos 12 anos, fugiu de casa para abraçar uma vida de incertezas, fazendo das pontes o seu teto. A decisão, no entanto, não a aliviou de outros sofrimentos. Conheceu as drogas na adolescência. Teve que lutar, ainda jovem, contra a fome. Nas esquinas de Porto Alegre, aprendeu rápido como disputar, pedido a pedido, uns centavos de compaixão dos transeuntes. Quando as moedas eram insuficientes, o jeito era apelar para os “macaquinhos” — sacolas plásticas com restos de comida deixadas em árvores por moradores.

Liliane Cardoso
A jovem leva as filhas para um dos encontros do programa Cidadão-Bebê. O programa da LBV a auxiliou a vencer a insegurança diante de mais uma gravidez e fortaleceu os vínculos afetivos com os demais integrantes da família.

Essa experiência, contudo, não foi suficiente para protegê-la de outros males. Nos pedaços de chão esquecidos da capital, presenciou o lado cruel da vida de um desabrigado. Aos 18 anos, Larissa foi vítima de violência sexual e contraiu o vírus do HIV. A saúde, que já andava em frangalhos por conta das precárias condições de quem vive ao léu, piorou. Debilitada pela Aids — e pela dependência química —, não teve forças para enfrentar a leptospirose. Ficou um ano hospitalizada, sem poder andar.

O complicado quadro clínico acendeu o sinal de alerta. Precisava mudar ou teria um destino trágico. Já tinha passado da hora de buscar ajuda. O primeiro passo era se livrar do vício em drogas e reconquistar o carinho da filha, que vivia com uma de suas irmãs. “Ela não estava me reconhecendo como mãe”, conta. O amor incondicional foi determinante para que Larissa recuperasse a capacidade de sonhar.

“A maternidade, para mim, significa esperança, sempre querer um futuro melhor. Se a gente não tiver esperança, não teremos um mundo melhor”, atesta.

Carinho de mãe

Para modificar a própria realidade, Larissa precisou de um auxílio que ia além dos trocados que recebia nas ruas de Porto Alegre. Recuperou-se do vício das drogas, mas a autoestima seguia baixa. A insegurança diante de mais uma gestação — àquela altura já tinha duas crianças — crescia com o passar do tempo. O que fazer? Da clínica que passou a frequentar, veio a indicação.

A Legião da Boa Vontade (LBV) abria mais um grupo de gestantes para o programa Cidadão-Bebê. Não hesitou. Procurou a Instituição e se inscreveu. No primeiro contato com a equipe social da Entidade, a surpresa. Não recebeu olhares de desaprovação ao anunciar o passado nas ruas e o envolvimento com as drogas na adolescência. Pelo contrário, recebeu carinho e conforto. “A primeira vez que eu cheguei aqui já me trataram muito bem”, destaca.

Nadiele Bortolin
No programa da LBV, Larissa restabeleceu a autoestima e venceu as inseguranças diante de mais uma gravidez, participando de palestras com profissionais da área da saúde, dinâmicas de grupos e atendimentos com a equipe social da Instituição.

Durante a ação, participou de atividades que ajudam a fortalecer os laços maternos e, consequentemente, a superar os desafios iniciais da gravidez e do pós-parto. Venceu a insegurança e fez amizades. Voltou a sorrir. “Eu aprendi a dar valor ao próximo, aos filhos que a gente tem e à nova geração que está por vir”, revelou. No último encontro do grupo de gestantes, Larissa recebeu da Instituição um enxoval completo para ela e para o bebê, que nasceu saudável. Emocionada, garante que na LBV voltou a se sentir valorizada. Ganhou uma nova família.

“A Legião da Boa Vontade significa esperança para muita gente que precisa. Quando precisei foi o lugar que recebi o apoio, ela passa muita segurança, carinho e respeito, aqui não importa se você é negro, branco, pobre ou rico, o respeito é o mesmo com todo mundo, são todos iguais, a gente é considerada uma família aqui”, finaliza.

Somando vitórias

O amor materno é capaz de operar mudanças e Larissa também pôde confirmar essa premissa. Hoje, a jovem está livre das drogas, reconquistou a confiança da família e construiu um novo núcleo familiar. Trocou o pedido por esmola pelo ofício de empregada doméstica, com o qual paga as despesas do lar. A caminhada foi árdua, mas a luta para recuperar a dignidade e transformar a própria vida foi vencida. Larissa chegou a um final feliz. Com um sorriso no rosto, não tem vergonha em cravar: “Sou uma sobrevivente”.

Nadiele Bortolin
A jornada foi difícil, mas Larissa chegou a um final feliz. Livrou-se do vício das drogas, se reaproximou das filhas e reconquistou a capacidade de sorrir.

“Se eu não conhecesse a LBV, não teria um bom tratamento com os meus filhos, ainda mais quando a gente passa por dificuldade, me ajudou bastante. Aprendi a vencer os desafios e a dar mais valor à vida”, comenta. Para as inúmeras mulheres que passam pela mesma situação, Larissa pontua: "Peço que não desistam, porque aqui na Legião da Boa Vontade o que aprendemos é não desistir. Temos que ter esperança”.

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* O nome da atendida é fictício para preservar sua identidade