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Acolhimento é a palavra de ordem

Seja nas aulas presenciais ou remotas, rede de ensino da LBV prepara-se para ajudar pais e alunos a vencer os desafios socioemocionais provocados pela pandemia

Vivian R. Ferreira

Michel Moraes Rodrigues, aluno do 6º ano do Ensino Fundamental da escola da LBV, assim como seus três irmãos, que moram com a mãe no centro da capital paulista, aguarda com expectativa o reinício das aulas presenciais.

Quando se der a retomada das aulas presenciais em 2021, a principal preocupação dos educadores da rede de ensino da Legião da Boa Vontade (LBV) é receber da melhor forma possível os alunos depois de longo período de ensino remoto.

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Com um público vindo de famílias em situação de risco social, ou seja, aqueles que estão no grupo que mais sentiu a crise sanitária do novo coronavírus, a Instituição travou, desde os primeiros dias dessa pandemia, uma grande batalha para amparar seus atendidos e não deixar que nenhum desses estudantes se abatesse com o fantasma da evasão escolar. Os motivos para isso foram muitos, mas, com Amor e dedicação, os profissionais da Entidade foram vencendo cada obstáculo no caminho e dando o suporte necessário a eles.

Vivian R. Ferreira

Suelí Periotto é supervisora da Pedagogia do Afeto e da Pedagogia do Cidadão Ecumênico e responsável pelas unidades da rede de ensino da LBV. Doutora e mestre em Educação pela PUC-SP, também atua como conferencista.

A supervisora da Pedagogia do Afeto e da Pedagogia do Cidadão Ecumênico e responsável pelas unidades da rede de ensino da LBV, Suelí Periotto, afirma que esse momento de retomada terá de ser, acima de tudo, de acolhimento, porque boa parte dessas crianças e desses jovens vivenciou traumas e perdas durante esse período.

Ela lembra que a visão integral do aluno, que propõe a junção “cérebro e coração”, está na base conceitual da linha pedagógica da Legião da Boa Vontade, criada pelo educador Paiva Netto. “A LBV educa com Espiritualidade Ecumênica. Esse é o nosso diferencial; valorizar tudo aquilo que está dentro do ser humano e também despertar nele o desejo de fazer o mesmo por outras pessoas, de modo que eles multipliquem esses valores pela sociedade”, ressalta Suelí. 

A professora explica que os estudantes virão para os bancos escolares em diferentes fases de aprendizado: “Há aqueles que têm maior facilidade e há os que sofreram situações de bloqueio na aprendizagem, porque o emocional pesou bastante e de maneira diferenciada em cada um deles”. Essa diversidade de níveis exigirá um cuidado especial dos professores, que estão sendo preparados para um planejamento inicial que objetiva diagnosticar o que foi apreendido pelos educandos e trabalhar com reforço escolar, a fim de que não fiquem lacunas de conteúdo.

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Na entrevista a seguir, ela falou ainda da experiência adquirida nesses meses de pandemia, quando os educadores da Instituição tiveram de ser o apoio não só dos alunos, mas também de pais e responsáveis — cuja renda vem em sua maioria de serviços informais­ —, que, de um dia para o outro, não tinham mais de onde tirar o sustento.

Diego Ciusz

BOA VONTADE — Quais foram os principais desafios no ano de 2020?

Diego Ciusz

Suelí Periotto — Primeiro, sem esperar, precisamos suspender as aulas presenciais de imediato; na unidade da LBV em São Paulo, tivemos uma semana para essa transição. Nós nos reunimos com os professores para pensar no que fazer, principalmente porque sabíamos que a maioria dos nossos alunos não tinha computadores. Vimos que celular era o mais comum, quase toda a família tem. Depois veio o desafio pessoal, dos nossos próprios professores, de como montar essas aulas, que não são on-line, o aluno não está acompanhando a aula em tempo real. Tínhamos de editar esses conteúdos, era tudo novo para nós, com raras exceções. Fizemos pesquisas e um replanejamento das aulas, com a participação de todos. Não havia uma receita pronta para cada faixa etária, quantas aulas mandar... Observamos que os mais velhos, os educandos a partir do sexto ano, precisariam de um tempo maior de aula. Então, os profissionais começaram a gravar aulas de 40 minutos, a fim de que eles pudessem acompanhar aquele conteúdo quantas vezes precisassem. Nós optamos por um aplicativo em que o professor não precisa expor seus dados, mas tem como receber dos estudantes o retorno, tirar dúvidas... Nas escolas de Educação Infantil, a tarefa foi um pouco menos complexa, mas igualmente desafiadora no sentido de que eram menos aulas e conteúdos, mas não podíamos perder o vínculo com as crianças, porque, a cada início de ano, há um imenso esforço para ganhar a confiança delas, para que elas olhem para a gente e não chorem, porque as mães vão embora. Estávamos em 16 de março quando tudo aconteceu, as crianças já não choravam, gostavam de estar com a gente. Então, tivemos de fazer pelos vídeos um trabalho de manutenção, “estamos aqui com vocês, lembram-se de mim?”

Vivian R. Ferreira

Marta (E) e Miriam, alunas da LBV na capital paulista, que moram com a mãe e dois irmãos, não veem a hora do retorno presencial às aulas.

BV — Mesmo utilizando o celular para transmitir as aulas, vocês tiveram outros problemas?

Suelí Periotto — Sim, havia lares com um único celular ou que o aparelho estava quebrado. Outros não tinham internet. Identificamos essas famílias e fizemos uma campanha para conseguirmos celulares usados em bom estado, e a Instituição pagou pacotes de dados pré-pagos para suprir essas necessidades. Assim, ninguém ficou sem acesso. Alguns professores das redes pública e particular começaram a nos procurar para saber como fizemos na LBV, a exemplo do pessoal da Secretaria da Educação da Rede Municipal de Capão Bonito/SP, que solicitou capacitação de como montar as aulas. Na oportunidade, compartilhamos todos os tipos de aplicativos de edição que havíamos utilizado, e nossos educadores fizeram lives para mostrar como colocavam mapas e fórmulas nos vídeos, passamos nove dias em encontros virtuais com eles, para que pudessem pegar as informações das disciplinas de todos os níveis. O mesmo ocorreu com a Rede Municipal de Paramirim, na Bahia.

Carlos Jonas de Souza

BV — Outro resultado bastante positivo foi a rede de ensino da LBV terminar 2020 com evasão escolar zero. A que atribui esse êxito?

Suelí Periotto — Além das medidas que já falamos anteriormente, foi agir rápido e com muito comprometimento. Por exemplo, no Conjunto Educacional Boa Vontade, na capital paulista, logo no primeiro mês, quando se identificou que 51 alunos não haviam devolvido as atividades, nós os procuramos, porque poderiam resultar em desistências, evasões no fim do ano. A gente precisou que o Serviço Social e a Orientação Educacional fossem atrás dessas famílias. O desafio de ausência deu-se em maior número com os mais velhos; no entanto, em muitas de nossas escolas de Educação Infantil, tivemos famílias que não tinham estrutura para ficar com as crianças em casa e as mandaram para residências de avós em outras cidades. Quando soubemos disso, despachamos atividades pelo Correio para que o conteúdo fosse aplicado.

Bianca Gunha

BV — Por que a não entrega dos materiais se deu em maior número com os estudantes mais velhos?

Suelí Periotto —  Pela autonomia que têm ou porque os pais estavam no olho do furacão. Em São Paulo, temos uma família que vive na região próxima da Cracolândia e que se sustenta da venda de água no farol. No começo, parou o trabalho deles, não tinha nada na rua. Eles estavam tão desesperados com a falta de alimentação, de tudo, que, no primeiro mês, quando falamos que haveria cestas de alimentos, foi um impacto, eles sentiram um alívio. Foi e é muito importante a ajuda da LBV para que esses momentos não virem traumas. O produto de limpeza também entregue com as cestas me chamou atenção, porque essas famílias não iam ter como comprar uma água sanitária de cinco litros, um desinfetante, é o dinheiro que se usa para comprar alimento, não têm escolha. À medida que esse apoio da Instituição perdurou, foi uma bênção para essas famílias, elas mandam recado, gravam áudios, para vermos que todo mundo está feliz por se alimentar. E a gente conseguiu outros tipos de doações para oferecer mais alegrias, para que eles pudessem não ficar pensando que estavam sozinhos, para que não desanimassem. E conseguimos recuperar todos os 51 alunos. Percebemos que eles não sabiam se organizar e não tinham alguém para ajudá-los. Pegamos todo esse material que estava acumulado e dividimos por dia essa quantidade, mostramos que, se eles fizessem dois a mais, iriam conseguir. E deu certo!

Vivian R. Ferreira

BV — Vocês encontraram outras maneiras de estar próximos desses alunos. Como fizeram isso?

Suelí Periotto — Em agosto, quando a gente viu que as aulas presenciais não iriam voltar tão cedo, que a situação era complexa, percebemos que seria importante fazer encontros virtuais com esses alunos. Fizemos planejamento para encontros culturais, e a nota do trimestre de algumas disciplinas viria dessas ações, composições de trabalhos realizados pelos estudantes, com música, dança, desenho, poesia... A nossa intenção era exatamente que eles pudessem se ver. Juntamos as aulas de Convivência, Arte, Cultura Ecumênica e Filosofia, e com esses professores as notas todas foram em cima das criações, e não tinha como não dar 10, porque eles fizeram algo maravilhoso. Mas a intenção principal era sair um pouco das atividades do papel e dar a eles esse respiro, a oportunidade de um olhar o outro, de cantar, falar... Então, lançamos temas, e eles se organizaram com quem queriam fazer a atividade, aí, às quintas-feiras, tínhamos a apresentação on-line pelo celular. Começamos com o Ensino Médio, depois ampliamos para os alunos dos sextos aos nonos anos, e, em seguida, vieram as gincanas para as salas do primeiro ao quinto ano.

Vivian R. Ferreira

BV — Quais eram os temas desses encontros?

Suelí Periotto — Amizade e esperança: os estudantes tinham como objetivo enaltecer a esperança na construção de um futuro melhor para todos e cultivar a boa amizade diante do momento desafiador vivido mundialmente em função da pandemia do novo coronavírus. E os alunos mandavam suas mensagens, mas sabe aquela mensagem do espelho, “eu estou falando porque também preciso ouvir isso...” Eles amaram essa troca, a gente colocava ao vivo no YouTube, e eles iam escrevendo no chat: “Fulana arrasou!” Com isso foram matando a saudade, foi, emocionalmente, uma ação responsável por quebrar muito da solidão, porque temos estudantes que moram em lugares, aqui na capital paulista, muito simples, em casas pequenas, em locais como as Comunidades do Gato e do Moinho ou em invasões, e que estavam totalmente isolados, não podiam sair de casa, não podiam ver ninguém. Mas, de repente, a sua sala de aula entra no seu lar, e você se identifica com o que está sendo escrito, falado. Tudo o que foi ouvido não será esquecido, foi mesmo motivacional. Eu creio que atingimos o objetivo de amenizar esses momentos dolorosos pelos quais eles estavam passando.

Vivian R. Ferreira

BV — Quais são os planos para a retomada das aulas presenciais?

Suelí Periotto — Na etapa inicial, precisaremos diagnosticar em que ponto estamos, até onde os alunos apreenderam os conteúdos recebidos. O primeiro semestre será de reforço às aulas de 2020, a gente precisa repassar muito do que foi ministrado, para que não fiquem lacunas. Vamos fazer a adaptação e o acolhimento de todos para voltarmos ao ritmo perdido. E isso terá de ser feito com bastante jeito, porque muitos podem não querer expressar que não entenderam tão bem, outros, talvez, não tenham entendido muita coisa. Haverá reforços de todas as matérias com  incentivos  de um ajudar o outro. (...) É um trabalho fora do horário da sala de aula. Temos de mostrar que estamos todos juntos, e isso é fundamental para essa nova etapa que vamos estabelecer.

Vivian R. Ferreira

Cuidado, carinho e criatividade foram destaque nas cerimônias de formatura das escolas da LBV

Os educadores da Legião da Boa Vontade não economizaram carinho, cuidado e criatividade neste fim de 2020. De formas diversas, organizaram cerimônias para celebrar as conquistas de todos os alunos que, apesar desse ano de pandemia, conseguiram concluir mais uma importante etapa na vida estudantil.

Nas cinco escolas da LBV (Belém/PA, Brasília/DF, Curitiba/PR, Rio de Janeiro/RJ e São Paulo/SP), programações especiais foram preparadas para esse momento não passar em branco. As formaturas foram exclusivas e personalizadas, respeitando todas as normas de segurança. Veja, a seguir, algumas das manifestações de pais e estudantes, além de fotos desses memoráveis acontecimentos que essa gente jovem pôde dividir com os familiares.

Diego Ciusz
Diego Ciusz
Vivian R. Ferreira
Diego Ciusz