Vencer o sofrimento do corpo e da AlmaPaiva Netto
| | José de Paiva Netto, Diretor-Presidente da Legião da Boa Vontade | | A dor não aguarda oportunidade para bater à porta do coração
Geralmente, fundam-se instituições tendo em vista aqueles que necessitam de bens materiais, destituídos daquilo que os olhos penosamente testemunham. Todavia, o padecimento humano vai muito além do que se comprova na triste visão da pobreza material. A dor não se encontra apenas nos barracos, nos mocambos, nos charcos, nas madrugadas em que a Legião da Boa Vontade, ininterruptamente, levanta os mendicantes com a Sopa dos Pobres e a Ronda da Caridade*¹. Ela também está, e feroz, nas mansões, nos apartamentos de luxo, nos palácios, onde o Amor nem sempre habita. E não há maior sofrimento do que a ausência dele. Clamando por tranqüilidade d'alma Lá, nos ambientes requintados, há mães que choram a incompreensão dos filhos e filhos que sofrem o abandono dos pais; casais que não se compreendem; enfermos cercados de todo o apoio material e médico, mas sem a sustentação dos corações que mais amam; e até mesmo existem patrões de Espírito mais humilde que o de seus subordinados. Todos enfrentamos problemas. Todos! Se o drama não é estritamente pessoal, padece-se por alguém muito querido. Um mundo de paradoxos, de contrastes impensáveis. Em última análise, somos simples seres falíveis, clamando por tranqüilidade d'alma; instintivamente anelando a concórdia, aliada ao conhecimento da Verdade, de preferência a Divina. Jesus, o grande Amigo que não abandona amigo no meio do caminho, possui capacidade para iluminar o íntimo das criaturas. Ensinava Zarur: "Nenhum sofrimento é vão, nenhuma lágrima se perde. A vida humana é apenas uma preparação para a Verdadeira Vida. Não há um pranto sequer que Deus não veja. E quem não chora a sua lágrima secreta? O Pai Celestial guarda-as para toda a Eternidade". As dos pobres e as dos ricos. No Evangelho, segundo Mateus, 11:28, e segundo João, 15:5 e 14:18, o Cristo generosamente nos convida: Vinde a mim todos vós, que estais exaustos e oprimidos, e vos darei lenitivo. Eu sou a árvore, vós sois os ramos. Nada podereis fazer sem mim. Não vos deixarei órfãos. O conforto espiritual no Apocalipse E essa consolação fortalece-nos neste momento em que a violência campeia livre pelo mundo. Algumas pessoas não sabem, mas o Apocalipse (não o confundir com previsões de fim de ano nem com Nostradamus) também oferece alento aos que o analisam sem idéias preconcebidas, que não soam bem ao pensamento libertário da era em que vivemos. Ele anuncia, para os que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir, o mais glorioso acontecimento de todos os tempos da História — a Volta de Jesus. Por que não?! Victor Hugo (1802-1885) costumava lembrar que quem hoje afirma que uma coisa é impossível tacitamente se coloca do lado dos que vão perder. No Livro da Revelação, o Divino Senhor conforta: Não temas as coisas que tens de sofrer. (...) Sê fiel até à morte, e Eu te darei a coroa da vida. (...) Comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras (Apocalipse, 2:10 e 22:12). É imprescindível, portanto, orar e vigiar, mormente nas ocasiões de crise, qualquer que seja o lugar ou o instante. A dor não aguarda oportunidade para bater à porta do coração. E a prece não é somente útil nos transes dramáticos da vida, mas essencial na hora de buscar as soluções para os desafios de ordem filosófica, política, econômica, científica, religiosa, artística, esportiva, etc. Orar = meditar Orar e meditar assemelham-se. Ser humilde, perante a Verdade, é conduta apreciável. Assim pensava o notável professor e missionário metodista Eli Stanley Jones (1884-1973), que permaneceu largo período de sua vida na Índia e visitou várias vezes nosso País: "A humildade é a essência da Criação Divina. A primeira providência para o encontro com Deus é liquidar com o orgulho. Quando a pretensão termina, o poder tem início". Convém igualmente recordar esta advertência de Confúcio (551-479 a.C.): "Pague a Bondade com a Bondade, mas o mal com a Justiça". É oportuno, porém, destacar que o Mestre de Mêncio não falava de revanche, mas de Justiça. A Oração Ecumênica de Jesus A todos, pois, dedicamos a admirável rogativa que Jesus nos legou, como um convite à reflexão nos períodos de angústia. Qualquer um pode rezar o Pai-Nosso*² . Ele não se encontra adstrito a crença alguma. Trata-se de uma oração universal, consoante o abrangente Espírito do Cristo. Qualquer pessoa, até mesmo atéia (por que não?!), pode proferir suas palavras sem sentir-se constrangida. É o filho que se dirige ao Pai, ou é o Ser Humano a dialogar com a sua elevada condição de criatura vivente. Trata-se da Prece Ecumênica por excelência: Pai Nosso (ou diria o Irmão Ateu, ó minha consciência que paira na altitude do meu ideal!), que estais no Céu (e em toda parte ao mesmo tempo), santificado seja o Vosso Nome. Venha a nós o Vosso Reino (de Justiça e de Verdade). Seja feita a Vossa Vontade (de preferência à nossa vontade, enquanto não aprendamos a tê-la corretamente) assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia dai-nos hoje (além daquele que sustenta o corpo, necessitamos do transubstancial, a comida que não perece, o alimento para que o Espírito não esmoreça). Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoarmos aos nossos ofensores. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, porque Vosso é o Reino, e o Poder e a Glória para sempre. Amém! Que a Paz de Deus esteja agora e sempre com todos nós. **** (Texto originário de artigo publicado pelo autor na imprensa, na década de 1980.) *1 Ronda da Caridade — É um Programa da LBV criado em 1962, que integra a "Campanha Permanente da LBV contra a Fome", realizada pela Instituição desde a década de 1940, com a finalidade de amparar moradores de rua e comunidades em risco social, distribuindo alimentos, roupas e calçados, orientando quanto à higiene, prestando primeiros socorros e, principalmente, oferecendo a eles lições de vida, por meio de preces ecumênicas e palavras de Solidariedade. *2 “Pai-Nosso” — Nunca é demais volver o pensamento e o coração ao Altíssimo. A Prece que o Cristo ensinou, clara, concisa e prática, é perfeita para todos os momentos da Vida, na alegria ou na tristeza, mormente agora, num mundo em que tudo acontece com velocidade espantosa.
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